segunda-feira, 27 de abril de 2009

(Des)Apetite

"... Então lembrou-se de seu filho que um dia dissera na hora do jantar: não quero esta comida! A mãe retrucara: que comida você quer? O menino terminara dizendo com o doloroso espanto da descoberta:
- Nenhuma!
Ele, Martim, então lhe dissera:
- É muito simples: se você não está com fome, não precisa comer.
Mas a criança começara a chorar:
- Não estou com fome, não estou com fome...
E como o rádio também estava ligado, o homem gritara:
- Já lhe disse que se você não tem fome não precisa comer! por que então está chorando?
O menino respondera:
- Estou chorando porque não estou com fome.
- Prometo que amanhã você vai ter fome, prometo!, dissera-lhe Martim perturbado, entrando por amor na verdade de uma criança.
... Afinal uma pessoa se mede pela sua fome - não existe outro modo de se calcular."

A maçã no escuro
Clarice Lispector



E nada fazia nenhum sentido. Ela nunca sentira essa falta de perspectiva e fragilidade tamanha, não assim, com tanta intensidade. Desta vez era pra valer! Tentava dar nomes, definir o que seria tudo aquilo que se passava, dentro, no mais profundo do seu ser, na superfície também. E era tudo tão superficialmente confuso. Chegara ao ponto de sentir um medo incomparável a qualquer outro sentimento que ela já conhecera só de pensar no dia de sua morte. E percebeu que até as convicções espirituais que ela pensava fazerem parte de seu universo não eram mais reais. Como seria? Trágico! Abominável pensar viver uma eternidade feliz... pior seria o castigo do inferno pra todo sempre! Mas isso a atormentou bem pouco, só por alguns segundos. Ela ainda tentava encontrar nomes. Qualquer que fosse o rumo que escolhesse seu pensamento, a cabeça rodando em um turbilhão, nada lhe fazia sentido algum. E ela se perguntou se ainda havia planos para a felicidade. Julgou que não. Talvez aí estivesse o problema. Era tudo tão absurdo! O que faltava era felicidade. Mas o que seria felicidade? Criou em sua mente o cenário perfeito, o sonho almejado de vida... será?! A simples dúvida lhe fez perceber que talvez o poço fosse mais fundo do que ela supunha. Haveria alguma coisa já inventada que fosse capaz de lhe fazer sentir a tal felicidade? E se sim, poderia ela colher esse fruto de tanta escuridão? Não sabia... Era isso, não sabia de absolutamente nada. Nada! Então preenchia os minutos, as horas, os dias com o que conseguia de mais fútil e temporal: comer, dormir, trabalhar, fingir momentos de descontração com os amigos, viver horas a fio em forma virtual. E a isso... ela dava o nome de "vida"...

2 comentários:

Luciano disse...

"O menino terminara dizendo com o doloroso espanto da descoberta:
- Nenhuma!"

#Eric Silva# disse...
Este comentário foi removido pelo autor.