quinta-feira, 2 de abril de 2009

Traduzindo...

Procurando poesia só pra desenhar a tristeza que veio morar em mim hoje, porque eu precisava mostrar pra todo mundo o que na verdade eu queria é mostrar pra mim mesma em uma embalagem fina com o laço mais lindo e vermelho, eu corri sem pestanejar praquela que hoje é certamente a minha folha de papel repleta quando as palavras insistem em ficar encaramujadas na minha caneta... Marlinha, não duvides que te amo com toda intensidade poética! E meu rosto ainda está úmido enquanto colo aqui a poesia que pela primeira vez arrancou lágrimas além dos suspiros, gemidos e palpitações de costume!



TALVEZ

... Talvez a verdadeira intimidade eu só tenha buscado com as palavras. E eu me entupi delas no momento em que poderia estar aprendendo alguma coisa com alguém. Talvez eu aprenda a ser mais silenciosa; a usar palavras menos aflitas, a falar mais com o olhar. Porque me entupindo de palavras eu me defendo cuspindo-as em alguém que tente uma aproximação.

Faço um muro de palavras entre mim e as pessoas. Sou autoexplicativa só pra confundir.

Talvez eu tenha nascido para uma vida desapaixonada e culta. Talvez eu nunca tenha olhado verdadeiramente o outro; e só tenha visto o texto pronto que criei acreditando nele. Talvez eu não conheça o que julgava ter acesso cognitivo. E isso me entupiu de certezas que eu não soube abandonar ao longo do caminho.

Uso palavras para não sofrer, para plagiar uma dor, pra fingir que sou leve e que está tudo bem. Uso palavras pra falar de uma chuva que talvez eu não conheça porque não me permiti ficar encharcada dela. E ela virou a metáfora de um relacionamento_ o que pode ser tristemente poético.

Talvez eu só tenha sentido saudade pra falar de outras coisas. Pra usar a palavra "saudade" mesmo, que eu adoro. Acho que estou muito cansada. Falei demais das coisas e , no entanto, não toquei verdadeiramente em nada. Observei e descrevi, cheia de filtros semânticos. Dentro da minha limitação eu interpretei o Universo para que eu coubesse nele, em mim. E alienei as pessoas dentro de conceitos. E arranjei um sentimento pra cada coisa. E pensei que assim, tudo estaria em ordem, sob controle.

Eu que me julgava não julgadora, me considerava livre, agora tendo que empurrar as grades dessa prisão de certezas que criei pra mim. Sem poder culpar ninguém. Usando um discurso de alguém que não quer magoar o outro pra descobrir que no fundo só me importei comigo mesma e com os meus medos. Não deixei que o outro experimentasse o que havia de melhor ou de pior em mim. Não deixei que ele escolhesse.Mantive o muro de palavras e o meu discurso pronto pra continuar a salvo do outro lado. Eu que sempre falei de pontes...

Talvez eu seja uma farsa. Talvez eu seja virtualmente inacessível. Alguém que se entope de adjetivos pra entender as coisas e dizer que não se preocupa em entender nada. Eu que sempre falei de amor, não amei o outro em toda a dimensão da pessoa que ele é. Talvez eu tenha me preocupado mais com as vírgulas que não usei nas cartas de amor que escrevi que com as pessoas que as receberam e que se julgaram amadas. Talvez eu só tenha dançado pra fingir que gostava de música. Talvez eu só tenha bebido pra fazer parte de um círculo social. Talvez eu só tenha aceitado certas coisas pra poder ser chamada de amiga_ e usei levianamente a palavra amizade.Talvez eu tenha me apaixonado diversas vezes pra fazer parte do círculo de pessoas que sorriem diferente porque estão amando_ e sofri as carências que intercalam as paixões como se fossem reais. Talvez eu tenha rompido relações pra escrever cartas de despedida e mostrar como eu dominava a dor ao escrevê-la. Talvez eu só tenha experimentado as relações dentro da literatura.

Acho que estou realmente cansada. Falei demais sobre tudo e continuo no escuro. E a minha recusa em tocar nas coisas me impede de sair tateando em direção à luz. E mais uma vez eu uso palavras pra tentar me defender de algo, de mim.Talvez eu precise parar de ler Clarice Lispector... Talvez eu devesse escrever uma carta em branco pra dizer que quero silenciar: que se o silêncio ainda estiver esperando por mim, eu aceito. Preciso esquecer as palavras, preciso me despedir delas para começar a experimentar a vida com honestidade. Talvez silenciando eu consiga ser mais honesta com você. Eu que precisei escrever tanto pra dizer isto: que preciso silenciar.

Talvez eu só tenha escrito isso tudo pra conseguir chorar... E usar a palavra "talvez" pode ser o início do abandono de tantas certezas; o início do uso mais corriqueiro da frase “eu não sei".

Talvez isso seja um começo de alguma coisa;
Talvez isso seja um fim.
Talvez sejam apenas hormônios do período menstrual...
Mas isso tudo se parece muito com tristeza...
EU NÃO SEI.

Marla de Queiroz
http://doidademarluquices.blogspot.com/

12 comentários:

Lari Saram disse...

Menina, a vida é linda, Caetano é lindo, a Bahia é linda.

Não se entupa de trsiteza. Amanhã é sexta-feira!

Um beijo

Marla de Queiroz disse...

Lindeza,
Obrigada por resgatar este texto, ele foi escrito na mais profunda nudez e hoje eu precisava relembrá-lo.
Seu blog tá lindo demais!!!!!
Como vc conseguiu? Quero assim tbm!!!!!rsrsrsrsr


Beijo.
Tudo vai dar certo!

#Eric Silva# disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
#Eric Silva# disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Iêda disse...

Ai, que delícia ler esses textos da Marla!!!!
bjão, MAndy!!!

.::Li Hormigo::. disse...

"Faço um muro de palavras entre mim e as pessoas. Sou autoexplicativa só pra confundir."

Ai, esse trecho me acertou em cheio...

Lindo isso...muito prazer, Marla!

Bjo no s2, Amandaa

Michelle Ribeiro disse...

Ela arrasa!!! Perco a respiração toda vez que leio...

meus instantes e momentos disse...

ótimo esse texto. Muito bom.
Gostei do teu blog, foi bom vir aqui.
Maurizio

Poesia do Bem disse...

Maravilhoso post.Visite-me .Bjs

Luciano disse...

- Que tal parar de talvez e começar a chegar nas respostas?
- Não quero viver as respostas! Quero chegar mais longe cada vez mais, se um dia o talvez morrer, eu morro junto com ele.
- E eu com vocês.

Múcio L Góes disse...

querida, muito obrigado pelo carinho, pela visita, viu?

Marla sempre querida, a própria intensidade!

=]

[]´s

Camila Caringe disse...

A linguagem facilita e liberta, limita e corrói.
Mas não. Não é tudo verdade.
Não há ato linguístico que não seja precedido de ato mental, nem ato mental sem repertório, nem repertório sem vida.
É uma metáfora do irreal.
O poeta só o é porque viveu. Sem isso não paria poesia.
E parto, porque é parto, é sofrido. É mesmo como eu parto. A partida. A partilha.
É a vida brincando de não ser. Mas é. Mesmo sem querer.
É mentira que não tava na chuva. Não só tava como fez chuver. É só uma questão de perspectiva poética. E de renascer.