quinta-feira, 4 de junho de 2009

Enquanto...

Dei-me conta de que algumas coisas permanecem no mesmo lugar. Acho que é porque eu já fiz coisas demais. Fiz muitos amigos, nenhum inimigo, graças a Deus! Muitos se foram por aquele caminho oblíquo que a vida põe na nossa frente. A maior parte deixou ao menos um perfume na minha memória. Outros permaneceram. São como as estrelas. Estão lá longe, mas se olhamos com atenção em noite de céu aberto podemos ter a certeza de que estão bem ali, brilhando sobre nós. Alguns estão bem mais perto, fazem parte de cada pedacinho que a gente junta com um montão de outros pedacinhos e formamos uma coisa que chamamos de felicidade.

Já vi muitos filmes, ouvi muitas musicas. Comecei e não terminei de ler alguns livros e enchi meu coração das letrinhas de vários outros. Fiz muitos passeios, embora não conheça tantos lugares. Passei tardes de domingo na frente da TV na companhia da minha mãe. Outras no quarto desabafando tagarelices com minha irmã.

Eu já preenchi algumas agendas, com compromissos, alguns cumpridos, outros não. Com frases soltas, com poesia, com desabafos e até com cartas que nunca foram enviadas.

Já fui a muitas festas, dancei horrores, cantei imitando uma diva, chorei na frente do espelho. Já sonhei muitos sonhos, tive medo dos pesadelos, contei o tic tac do relógio nas noites de insônia e perdi a hora nas de desmaiado sono.

Já me declarei algumas vezes. Vivi amores. Outros tantos desamores.

Já arrumei o quarto com afinco pra bagunçar tudo de novo em algumas horas. Já esvaziei o guarda roupas muitas e muitas vezes e me deixei levar pelas lembranças que encontrei em pedaços de papel, cartas, fotos e perfumes e quando percebi, havia ficado horas ali, sentada no chão. Guardei tudo de volta.

Já trabalhei em algumas empresas e tive variadas rotinas e horários. Já estudei bastante e hoje ostento até um cartaz que me diz que sou jornalista. Já preenchi muitas sulfites e documentos de Word, joguei muita coisa fora e inúmeras vezes segurei o dedo no “Delete”.

Fiz compras, namorei, só fiquei, me apaixonei, desiludi, chorei de amor, de raiva então!

Há algum tempo, porém, eu tenho percebido que esforço-me pra fazer tudo. Esforço-me porque é fato que falta um pedaço que se faz cada dia mais essencial. A ponto de me fazer ficar sentada na cama tentando imaginar como seriam alguns momentos preenchidos dessa presença que se faz tão ausente.

Chegou um momento na minha vida em que eu me sinto dando voltas no mesmo lugar. Se eu teria que estar construindo ou trilhando qualquer coisa, há tempos perdi a capacidade de andar pra frente. No fundo eu fico repetindo os mesmos passos porque eu sei que nada será efetivo e real se não tiver alguém pra dividir tudo isso, pra dividir só isso.

Eu acordo todos os dias na minha cama de solteiro e me pergunto até quando vou dormir num espaço tão grande assim só pra mim. Eu olho pro apartamento de minha mãe e não vejo a hora de ter o “nosso”, pra viver momentos únicos e exclusivos disso que eu não tenho e que se faz necessariamente visceral.

Eu olho pra qualquer criança na rua e automaticamente me imagino como mãe. Eu amo muitas pessoas mas elas já não me bastam e eu tenho coisas que guardo só para o dia em que eu poderei partilhar acompanhadas de amor e planos numa mesa de jantar a dois.

É como se a gente limpasse um móvel com o peso de saber que em algumas horas ele vai estar empoeirado de novo. Assim tem sido a minha vida. Pesa sobre mim uma falta de sentido escandalosa pra tudo porque eu não tenho só uma coisa. E pode parecer egoísmo ou fantasia, mas eu também não tenho a possibilidade de saber como seria. Então, eu continuo acreditando que só falta mesmo tudo isso!

3 comentários:

Iêda disse...

Palavras preenchidas de forma linda, mesmo com tanta falta. O seu "chorei na frente do espelho", me fez lembrar que tenho um texto guardado, antiguinho, que fala disso... rs Vou reler e vê se tenho coragem de publicar, pque ultimamente ando me censurando com minhas palavras...
beijão

Luciano de Sálua disse...

"É tempo de incoerências, de acasos, de surpresas.
É tempo de loucuras, insanidades, indecisão e vai-e-vem."

Filomenas disse...

Mandyta...me sinto assim às vezes também. Apesar de ter o alguém que te falta, sinto falta do resto que poderíamos ter...

beijos

mi