segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ainda me impressionam suas sutilezas!

Ali na clareira, de repente e num movimento inesperado de libertação, ela desprendeu os pés da terra ensopada – e num voo atravessou o umbral da porta lançando-se em procura do homem num desespero de ave na gaiola. E quando seu corpo bateu no dele, ela não se espantou sequer de encontrar Martim de pé e vestido e ensopado de água, como se também ele tivesse acabado de entrar no depósito.

E o homem estupidificado, vendo-a com a cabeleira desfeita, selvagem como um crisântemo, só se deu conta do que acontecia quando enfim reconheceu o vulto da moça. E ele não saberia se ela correra para ele ou se ele próprio se lançara para ela – tanto um assustara o outro, e tanto um era a própria solução para que o outro não se aterrorizasse com o fato de tão inesperadamente estarem unidos. Ela se grudou a ele no escuro, aquele homem grande e molhado com cheiro de azinhavre, e era estranho e voraz estar abraçada sem vê-lo, apenas confiando no ávido sentido de um tato desesperado, as ásperas roupas concretas, ele parecia um leão de pêlos molhados - seria ele o algoz ou o companheiro? mas no escuro ela teria que confiar, e fechou intensamente os olhos, entregando-se toda ao que havia de inteiramente desconhecido naquele estranho, ao lado do mínimo conhecível que era o seu corpo vivo – ela se colou àquele homem sujo com terror dele, eles se agarraram como se o amor fosse impossível. Não importava sequer fosse ele um assassino ou um ladrão, não importava a razão que o fizera cair no sítio, há pelo menos um instante em que os dois estranhos se devoram, e como não gostar dele se ela de novo o amava? – e quando a voz dele soou em grunhido no escuro, a moça se sentiu salva, e eles se amaram como cassados se amam quando perderam um filho.

E agora os dois estavam abraçados na cama como dois macacos no Jardim Zoológico e nem a morte separa dois macacos que se amam. Agora ele era um estranho, sim. Não mais porque ela o desconhecia – mas como modo dela reconhecer a existência particular e intransponível de uma outra pessoa ela admitia nele o estranho como reverência de amor. Nesse momento ela poderia dizer: reconheço você em você. E se a graça também esclarecesse o homem além do temor de estranhar, também ela seria para ele enfim a grande estranha - e ele lhe diria: e eu reconheço em você, você. E assim seria, e seria tudo, pois isso provavelmente era amor.

***
E foi então que, como se seus olhos a olhassem de frente, ela teve a ideia de si mesma como se se visse: e o que viu foi uma moça sozinha naquele mundo gotejante, com um ombro descoberto pelo lençol que a enrolava mal, os cabelos soltos e aquele rosto em cuja fácil indecisão se pintara agora a alegria de viver.

Clarice Lispector
A maçã no escuro



P.S.: Eu me pergunto, meu Deus, que inspiração pode extrair isso de um mero mortal?! Alguém tem dúvida do porquê de meu profundo amor por ela?!

4 comentários:

Iêda disse...

bela escolha!!!
Não tenho dúvidas. Também amo cada palavra dela...
beijo

Lari Saram disse...

Ela é perfeita, mesmo.

Luciano de Sálua disse...

Tive um caso com ela ;-D

Verena Ferreira disse...

Eu tenho uma dúvida: você está melhor?