terça-feira, 21 de julho de 2009

Educomunicação e Comunidade

Quando colocado como objeto de reflexão e estudo, o conceito de Educomunicação nos impele a analisar, antes de mais nada, algumas veracidades. Tanto a Educação, quanto a Comunicação, estão entre os direitos garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que completou 60 anos em 2008. Portanto, estas duas faces da Educomunicação “deveriam” ser comuns a todo/a cidadão/cidadã.

Outro ponto que se faz necessário antes do aprofundamento da discussão em torno deste tema é conceituar o termo Comunidade. Conjunto de habitantes de um mesmo local, conjunto de indivíduos com características comuns, ou ainda, conjunto de populações que habitam uma mesma área, ao mesmo tempo. É interessante como o conceito de Comunidade, além de muitas outras ideias, é capaz de remeter aos primórdios da humanidade, já que, nunca na história do mundo, o homem e a mulher viveram organizados/as de outra maneira, e ainda mais na história contemporânea essa possibilidade faz-se nula, sendo a linguagem a criadora da necessidade do/a outro/a para que se efetive a condição de ser humano. Além disso, é impossível pensar no conceito de Comunidade sem falar em Cidadania. E este também fica bastante claro na mesma Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, além dos direitos, prevê também os deveres, já que ser cidadão/cidadã é ser alguém dotado/a de ambos.

Educomunicação, portanto, é o conjunto de práticas que associa Educação a Comunicação. Conceitualmente, estes dois bens sociais que devem ser analisados e implementados exclusivamente sob a ótica do bem comum, são as duas pontas mais difundidas do enlace educomunicativo. Entretanto, é de suma importância lembrar que Educomunicação, além de Educação aliada a Comunicação, traz em sua essência também Ação, sem a qual não se consegue sair do campo conceitual.

A vertente surgiu na década de 70, invadiu o espaço midiático, a escola e hoje ganha força junto à sociedade civil organizada. Ao participarem destas organizações comprometidas com interesses sociais mais amplos, as pessoas acabam inseridas num processo de educação informal que contribui para a formação cidadã. Mais do que obtenção e difusão de conhecimento e informação junto aos meios de comunicação e às práticas comunicativas, notou-se o fenômeno da mobilização social, protagonizado pelas ONGs através deste novo profissional denominado Educomunicador. Este agente deixa de ser “emissor” e passa a ser “mediador” ou “facilitador” no processo de aprendizagem ou de conhecimento através da Comunicação, representada pelos meios, que são bens públicos.

Este novo conceito quebra a hierarquia na distribuição do saber, justamente pela conclusão de que todas as pessoas envolvidas no fluxo da informação são produtoras de conhecimento. Inclusive, a militância pela democratização da Comunicação também é fruto deste novo movimento. O objetivo é permitir que a população tenha voz enquanto comunicadora. E aí há uma transferência de lideranças, de grupos que no passado comandavam a chamada Comunicação Alternativa, para a própria sociedade. O poder de transmitir mensagens através da mídia, principalmente a de cobertura local e regional, amplia-se a novos emissores, ao mesmo tempo em que a grande mídia também é pressionada a democratizar seu espaço a temáticas de interesse público, menos mercantis e mais comunitárias.

Mas, a escola também recebeu os fluxos positivos destas mudanças de paradigmas. Não podemos esquecer, sem dúvida, do grande esforço que vem sendo feito para colocar a Educação Comunicativa a serviço da construção da Cidadania. Haja vista muitos projetos que se espalham cada vez mais pelo País com objetivos em comum: criar um ambiente de comunicação livre e participativa, inserir nas práticas educativas o estudo dos sistemas de comunicação e suas práticas de produção, transformar as relações de comunicação na escola contrariando as formas autoritárias estabelecidas, rever os conceitos tradicionais de comunicação que existem apenas para persuadir ou fazer a boa imagem dos que detêm poder e fama, estimular o aumento da auto-estima e da capacidade de expressão das pessoas, como indivíduos e como grupo.

Hoje, a referência em estudos e pesquisas em torno da Educomunicação é o Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (NCE/ECA/USP), sob a coordenação do nome que também é referência reconhecida no assunto, o Professor Doutor Ismar de Oliveira Soares. A instituição desenvolveu um importante projeto que também se tornou um dos maiores referenciais na área: o Educom.rádio, “Educomunicação pelas ondas do rádio”, uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e o NCE/ECA/USP, que mudou a realidade das escolas públicas ao atingir toda a estrutura escolar: profissionais da Educação, alunos, funcionários e comunidade. Um bom exemplo da eficácia do relacionamento entre Educomunicação e Comunidade.

Outro projeto importante e que se destaca pela especificidade do trabalho com adolescentes é o Projeto/Revista Viração. Nascido em março de 2003 com o objetivo de unir jovens e adolescentes de todo o Brasil em torno de princípios como a defesa dos direitos humanos e a educação à Paz, à solidariedade entre os povos e à pluralidade étnica e racial, o projeto possui um diferencial: os Conselhos Jovens, chamados Virajovens. Eles são formados por adolescentes e jovens que se encontram uma vez por mês para avaliar a revista impressa e o portal, propor pautas e discutir a realidade brasileira e mundial. Já são 21 em todo o País. Na Viração, o/a jovem tem voz. Pode opinar, dar sugestões e colaborar produzindo e fazendo aquilo com o que se identifica: texto, foto, vídeo, ilustração etc. Sem contar os projetos múltiplos que se fazem “braços” do ramo principal que é exatamente o Projeto/Revista Viração.

O fato é que a questão da Cidadania se apresenta como a intersecção de todas as experiências no campo, sejam no espaço da educação formal (Escola), sejam as mantidas pela sociedade civil no âmbito da educação não formal (centros de cultura, sindicatos, associações de moradores etc.). A relação Comunicação/Educação tem produzido mudanças substanciais nas relações sociais e nos modos como os grupos humanos interagem. Afinal, educação significa também civilidade, educar para a sociedade, para a convivência social, para a tomada de consciência e o exercício dos direitos e deveres de todo/a cidadão/cidadã.


P.S.: Este texto foi escrito no início do ano especialmente para uma seleção de emprego. Achei conveniente postá-lo unicamente para contextualizar melhor a chamada que eu poderia ter feito apenas com o folder. Então... lá vai!


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