quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Aborto

Ele estava ali. Fora concebido um dia, assim, sem mais, nem porquê, de uma sorte de querer. Aninhado no útero, esperava pelo mundo enquanto o mundo o via de fora. Tímido, ganhava corpo sem muito alarde. Se alimentava de qualquer resquício de gentileza. Se deslumbrava com qualquer sombra de intimidade. Ensaiava sorrisos de todos os tipos: os mansos, os maliciosos, os fúteis, os escandalosos. Esperava alguma coisa, não sabia o quê. Sem nome ainda, já tentava se definir. Era medroso que só, mas tinha tanta fome de existência! Queria ser forte, mas era mais ele quando vítima. Precisava dos apetrechos todos tão próprios dos covardes. Esperava por um ninho. Podia ser qualquer coisa simples, nobre, talvez aquele que se formava no desenho das mãos unidas em forma de concha. Pousaria ali, com gosto pousaria! Até que então sentiu a hora chegada. Pensou em tudo que escutara, tudo que imaginara em seus sonhos mais íntimos durante aquela estadia. Era hora de conhecer o outro lado. Se deliciava só de pensar! Achou mesmo que seria fácil, afinal, encontrara o espaço do abraço. Encontrara! E ali ficaria, ali dormiria tranquilo, ali teria todas as respostas e faria tantas outras perguntas. Era o espaço exato, do tamanho perfeito. Porque ali cabia todo inteiro, todo entregue. Ali e nos olhos. Nos olhos também! Se via a si mesmo nos olhos. Mas percebeu. Algo estava errado. Não entendia porquê tanta demora. Tinha pressa, tinha sede demais! Foi quando se deu conta: as mãos não estavam unidas em forma de concha, o abraço não estava aberto, e os olhos marejavam, e molhavam a luz, e os sonhos, e as promessas. Não tinha lugar ali. Percebeu, em completo estado de lástima, que nasceria sem solo, sem um coração pra ocupar. Não quis arriscar. Decidiu. Não nasceu. Voltou ao seu lugar. Aquele, o mesmo, de onde talvez nunca sairia. “Pena”, pensou, e chorou, o amor!

Um comentário:

.::Li::. disse...

Nossa, que lindo...tão triste, tão franco...
Mas minha amada, Amanda...o amor não é pra ser entendido, não é?! Apensar ser sentido...

Bjoks ;)