quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sobre borboletas, ampulhetas e amor...

Hoje é mais um daqueles dias eu que eu sinto uma necessidade quase visceral de falar de amor. Esta é uma semana, aliás, atípica. Folga do trabalho, dos deveres chatos, dos celulares, dos e-mails, dos sorrisos prontos, da alimentação regrada, do tic tac do relógio... enfim... a oportunidade de me trancar dentro da minha bolha, literalmente. E aqui tem bastante espaço. Tem sonos longos e bem dormidos, tem dias de 24 horas a serem preenchidas - não esticadas, tem livros, muitos livros, tem músicas, muitas músicas, tem filmes com pipoca, tem sonhos de olhos abertos (como eu gosto de fazer isso... tinha me esquecido!), tem afagos que compensam as crueldades... e tem borboletas e ampulhetas...

Um querido me deu de presente esta simbologia. O renovo implícito às borboletas. E ela tem permeado os dias.

Uma amiga ganhou de presente de aniversário uma ampulheta de areia lilás, grande, linda! E me fez lembrar como eu gosto deste objeto.

Quase que simultaneamente, ambos se associaram e decoraram minha bolhinha. Eu me lembrei de ter ganho um par de brincos de borboletas. E vasculhando meu blog, descobri que as duas já andaram se mostrando entre os vocábulos que transbordaram alguns sentimentos.

Mas... e o amor? O amor? O amor tá nos sonos, nos livros, nas músicas, nos filmes, nos sonhos, nos afagos. O amor tá nas asas da borboleta. O amor tá no jeito bonito de medir o tempo dentro da ampulheta. Tá na esperança que renasce em mim todo dia de manhã quando eu escolho levantar. Tá na gratidão que me toma e me embarga quando eu lembro que bem aqui, atrás da parede a minha frente, dorme alguém que é hoje a personificação do amor maior meu aqui na Terra. Tá nas lágrimas que contradizem essa sensação de petrificação da alma que me tomou nos últimos tempos. Tá nos sorrisos que se mostram pra mim todos os dias. Tá na saudade. Nos infinitos particulares que me convidam pra dançar. Tá nos parágrafos e também nos pontos finais. Tá na chama da fé que ainda se mantém acesa em algum lugar do meu coração. Tá no dissipar da dúvida sobre ter filhos. Tá nos olhos da primeira criança que ganhou o meu amor incondicional. Tá na solidariedade que abre os braços toda vez que visito uma certa casa de portões verdes e cortinas tecidas de bondade. Tá nas fotografias que não me permitem esquecer o quanto eu amava aquele sorriso de olhos amendoados.

O amor, enfim... como tudo no universo... como as borboletas... como as ampulhetas... o amor está...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Da série "Diálogos da loucura enlouquecida..."

ELA: Lembra disso?! http://amandaproetti.blogspot.com/2009/03/aha-ta.html#links

ELE: Claro que eu lembro! Você enlouqueçeu minha loucura neste dia...

ELA: Eeeeeeeeuuuuuuu???? Você é que tava enlouquecido e tornou a conversa enlouquecedora...

ELE: Se quiser entorpecer minha loucura, tentarei voar sem os pés no chão...

ELA: Pra voar, meu bom rapaz, essa é a única maneira, garanto-lhe!!! ;)

ELE: Então vamos enlouquecer juntos conversando pela internet até ficarmos velhinhos ...

ELA: Td bem!

ELE: Acho que já estamos loucos! Estamos conversando por e-mail... Já existe, eu acho , um sistema de conversação em tempo real, com vídeo chamada até. Onde você mora tem isso?

ELA: Onde eu moro tem isso, acredita?! Aqui se chama Skype.

ELE: "O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar." Carlos Drummond de Andrade

ELA: Drummond... (((suspiro)))

ELE: "Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa." Carlos Drummond de Andrade

Faço dele minhas palavras...

ELA: Idem. E bota difícil!!! =/

ELA: Adivinha?! Hora de nanar!!! Cuide-se!

ELE: Contigo perco a noção do tempo! Buenas noches! Besitos lunares!

ELA: ZzzzzZzzzzZzzzz...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

"Reflexões"

Guardei os últimos dias dentro da minha bolha de sabão. Aquela através – costumo dizer que não gosto desta palavra, mas como ela cabe em determinadas ocasiões! – da qual eu vejo o mundo e o mundo me vê.

Pensei. Lembrei. Senti. Medi. E paralelamente a tudo isso o globo continuou a girar. As coisas parecem um pouco fora de lugar. Mas talvez eu é que esteja me posicionando do lado contrário à luz.

Nas últimas noites, na contramão do que vinha me causando uma crise no trabalho, eu despertei ao luar. Eu. Quer dizer, não o despertador. Mas algo me despertou. Se não eu, algo me despertou. E eu me dei de presente madrugadas afora. Fiz “muito”, fiz “nada”, passei horas olhando pra além do teto acima da minha cama, pra além. Porque tem horas que parede nenhuma pode me conter.

Naquelas em que senti vontade de ter companhia, fui agraciada... virtuais, irreais, imaginárias e quantas mais. Nas outras em que senti vontade de ter apenas uma pessoa ao meu lado, tive também. E nos sentamos na beira da cama e passamos as horas (in)termináveis de uma madrugada acertando contas e ponteiros.

Esta noite, não sei dizer em que escala consecutiva, eu relutei. Relutei, mas cedi. E cá estou, “à luz de tela”.

Eu gostaria de dizer algumas palavras a algumas pessoas, mas não posso. E isso é absolutamente atípico pra mim. Eu me sinto às vezes tão plena de vozes ao redor que concluo que qualquer eco meu se faça desnecessário.

Do amor, eu tenho muito a dizer ainda. Eu sei. E da dor, da dor também. Mas nem um, nem outra, trazem a minha tona aquele instinto de derramar palavras desajeitadamente e com aquela fome voraz como já fez em outros tempos.

Os dias misturam sutilezas e afagos a amargores que ainda não sei adocicar. E eu tenho entendido certas coisas. Eu tenho me visto. E isso me remete ao que diz o poeta acerca do advento infeliz da invenção do espelho que nos fez deixar de ter que nos curvar para vislumbrar a imagem refletida na água corrente do rio. Eu tenho me visto. Mas não através – olha ela aqui de novo – do espelho. Eu tenho tido o cuidado de optar pelas águas do rio. Eu tenho tido o cuidado de optar por me curvar, pra me enxergar. E qual não foi a minha surpresa quando percebi me percebendo da perspectiva de outrem. Muitas e importantes. Uma delas, já distante.

Alguns “adjetivos” por meio – aqui ela não cabe – dos quais nós damos forma às coisas e às pessoas têm vindo me convidar para longos passeios repletos de histórias reais. E é estranha a sensação de ser “adjetivada”, obviamente quando com adjetivos pelos quais não temos qualquer apreço. E é mais estranho vivenciar racionalmente e reflexivamente este processo embutido na natureza humana que é o ato de “julgar”. E é ainda mais estranho constatar que, embora resultante de uma cultura não preocupada com os frutos de sua semeadura, este processo proporciona mais de um caminho.

Minha mãe se foi há exatos quase 365 dias a julgar pela falta de alguns minutos ainda, e este é um mês em que coisas – se não todas, quase – aconteceram para me trazer até este lugar. Hoje eu não choro só a sua partida como um rito já previsto. Mas junto com a partida, eu choro a estada, do ponto de vista da presença de coisas e ausência de outras que poderiam ter feito desta uma outra tão diferente. A começar pelos adjetivos que faziam parte do olhar dela sobre mim. Alguns, daqueles amargos, são repetidos – ecoados, diria –, hoje, por outras pessoas que, como ela, fazem parte da minha vida, do que eu sou hoje, alguns, talvez, do que eu já fui um dia, mas todos, certamente, do que eu serei ainda. E eu me vejo absolutamente incapaz de responder qualquer coisa. E mais, me vejo absolutamente incapaz de renegá-los. Porque são meus, porque são parte de mim. Ou melhor, estão. Eu penso que “estar” é um verbo que nos cai muito melhor do que “ser”, tendo em vista o benefício da mutabilidade que nos foi concedido, implícito até.

E do que eu dizia sobre não poder dizer... do amor, eu tenho muito a dizer ainda. Eu sei. E da dor, da dor também. Das imperfeições todas da forma que ambos assumem quando vestidos em mim, eu calo. Calo porque me contento com o todo dito por outrem. Me contento do verbo não ressinto. Me contento porque felizmente eu posso me ver, curvada, ATRAVÉS do brilho de olhos que escolhem permanecer sentados compondo a roda que cerca a minha vida, a despeito do amor, a despeito da dor, a despeito de mim.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Das coisas que eu não posso conceber - parte 245

Não assiste TV. Não come carne. Tem valores esquerdistas, anarquistas, até.

Milita por uma sociedade mais justa. É contra o consumismo e a escravização da publicidade. Estuda o ser humano e suas relações.

Estereótipo: alguém que pretende algo para "um futuro".

Contrariedade: Não acredita no futuro. Não faz planos.

Se aliena por meio de artifícios químicos pra fugir da "realidade". Da realidade, onde ele se sai tão "melhor"!!!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Hoje é ela quem diz...

Ofegante.

Às vezes o que me falta é descanso. O que me escapa é a pausa. Como se em uma distração a vida pudesse fugir. Minha respiração é curta como é rápido o meu pulso. Sempre alerta. A postos para não parar. Ainda mais com uma vida outra batendo fora de mim, um amor de pernas e braços que caminha sem fim pra ganhar o mundo. Tenho fobia do não fazer. E penso tanto, que nem cabe na fala. As 24 horas do dia, dou um jeito de transformar em 30, nem que seja no silêncio da madrugada. A vida sempre me diz "Não tente me controlar", mas eu finjo que não entendo. O que ela quer de mim é coragem, já disse o João. E eu faço de conta que sou corajosa. Mas faço tão bonito, que ela até acredita.

Cris Guerra - http://amoreponto.blogspot.com/

sábado, 13 de novembro de 2010

Correio - 15 de novembro

No dia depois de amanhã, onze meses terão se passado. Onze. Se eu estivesse em algum lugar muito distante, o meu peito estaria apertado de tanta saudade, e eu certamente telefonaria pra dizer do tamanho do abraço pelo qual eu estaria esperando quando visse de novo os seus olhos cor de mel.

Tem dias que eu estou ensaiando escrever pra você. Porque eu sempre soube que quando essa hora chegasse, seria um passo para a aceitação. Eu queria poder escrever cada palavra com o sangue que escorrem dos meus olhos. E eu nem preciso dizer que já no parágrafo primeiro o choro veio se sentar aqui do meu lado pra acompanhar a tessitura desta “carta”.

Eu espero, do fundo das minhas entranhas, que de algum lugar você possa sentir a saudade, a dor e o amor que você despertou em mim. E eu tenho a impressão de que só estou viva sem você porque ao contrário do corpo, que se desfaz quando da partida, o amor não. Eu nunca tinha experimentado esse tipo de amor. Esse... que cresce a despeito da falta. Que se alimenta dela, aliás. E que toma as rédeas quando a força desiste.

Eu pensei que não fosse ser possível. Juro! Eu nunca pensei, aliás, isso aqui tudo sem você. Eu ainda me culpo. Eu ainda me pego pensando em detalhes que de um instante a outro, fazem toda a diferença. Eu ainda acho que não disse tudo o que eu queria ter dito. Eu disse, ainda bem, que você era a pessoa mais importante da minha vida. Eu disse.

Eu queria tanto escutar a sua voz de novo pronunciando aquele “minha linda” que me era tão pessoal. Mas eu não queria mais escutar o seu choro e o seu gemido. E isso, eu me lembro ter pedido a Deus. Mas talvez eu, eu que confundo a vida e a palavra, eu não tenha me expressado bem. Talvez Deus tenha me interpretado mal. Não era isso. Eu só queria poder ver o seu sorriso, escutar a sua risada, mesmo tão rara.

Eu sinto sua falta de um jeito diferente de todas as faltas que eu venho colecionando ao longo do caminho, contando até aquelas que ainda não são. E eu quero que você entenda que se eu me recusei a te lembrar, a te ouvir de novo, a te ver até, nas fotografias que eternizaram o seu rosto, graças, foi porque eu não podia com a dor. Eu era menor do que a dor. Eu era muito menor. Mas eu fui percebendo que crescia, a cada dia que passava, e ia ficando maior. Eu não arrisco dizer que superei a dor em tamanho, mas talvez estejamos agora de igual pra igual. E o meu alimento foi o amor. Aquele amor que junto comigo, não parou de crescer. O amor que me fez suportar os primeiros dias, quando eu tinha certeza de que aquele buraco aberto no meu peito me engoliria de uma vez por todas. O amor que me fez ter força pra pensar nas coisas que eu precisava fazer pra estar viva no dia seguinte. O amor que me encorajou a praticar alguns desapegos mesquinhos dos quais eu ainda era refém. O amor que me possibilitou respirar todas as vezes em que eu quis parar de fazê-lo.

Eu ainda não sei pensar na sua partida. Não sou capaz de esquadrinhar isso de maneira lógica na minha mente. Mas eu já consigo lembrar de você no lugar onde você deve estar na minha vida. Porque eu confesso também que houve um tempo em que eu quis esquecer desse lugar. Foi como se num piscar de olhos eu tivesse perdido todo o meu passado. Alguém que perde a memória deve sentir algo parecido.

Eu sei que estou evoluindo. E não sei muito bem como vai ser daqui pra frente e nem exatamente em que eu acredito. Mas se você não morreu em mim, acho impossível pensar que tenha simplesmente deixado de existir. Talvez no dia em que eu deixar também. Mas quer saber de uma coisa? Pensando bem, eu acho que vou recuar dessa incerteza sobre ter filhos só pra poder prolongar a sua existência. Você não estará aqui pra mimá-lo ou pra me ensinar a ser ao menos um pouco da mãe que você foi – sim, porque, me desculpe, eu sou incapaz de crer que ainda nasça uma como você – mas ao menos ele, ou ela, vai saber desse tão grande amor.

Nos momentos mais difíceis, sabe no que eu ainda penso? Que eu não passei pela vida sem o maior privilégio que eu poderia ter tido: ser sua filha. E quando eu tenho dificuldade pra crer em Deus, eu me pergunto, quem mais poderia ter tido tamanha generosidade?

Até aqui ainda fica a sensação de que faltou dizer tanto. Mas eu também não sei se até o fim vou conseguir falar desse amor pensando na profundidade que ele ganha em mim cada dia mais.

Só eu sei o quanto eu desejaria poder imprimir essas palavras e entregá-las dobradas “em mãos”. Porque seria como sempre foi. Você me abraçaria sussurrando aquele “minha linda” em meu ouvido e eu daria um beijo gordo na sua bochecha rosada.

Eu devia ter andado de mãos dadas com você todas as vezes que saímos juntas. Devia ter dito muitas e muitas vezes mais do que eu disse o quanto eu a amo. Devia ter ficado mais tempo aqui na sala assistindo TV com você e ter gastado mais horas na sua companhia do que eu gastei. Eu devia ter ficado do seu lado todas as vezes pra ver você cozinhando. Só pra estar ali. E devia ter te dado abraços intermináveis, até você me expulsar, brava com aquela minha mania de te irritar. Eu devia ter brigado menos com você, e devia ter sido uma filha mais parecida com a que você idealizou.

Mas já não há mais tempo pra nada disso. E eu ouso escrever pra fingir que ainda posso falar com você quando eu bem quiser. Como você fazia no meio da tarde, quando se sentia sozinha e me ligava pra perguntar qualquer bobagem.

Você é a melhor mulher que eu já conheci ou ouvi dizer. E apesar de tudo, pra minha imensa felicidade, uma coisa você esqueceu de levar. Seu coração. Mas não se preocupe. Eu o guardei no melhor lugar que encontrei. Está aqui. Pulsando no lugar do meu. E bombeando a vida que você levou quando partiu.

Dizer EU TE AMO agora seria barato demais. Eu ainda não sei dizer o que é isso que você significa pra mim, MÃE!

sábado, 2 de outubro de 2010

Ela procurava as mãos, ele, as partes íntimas. Ela gostava do jeito como ele fazia caretas ao enunciar alguma estória, os olhos se dilatando e os dentes se evidenciando em sorrisos espaçosos. Ele achava que ela falava demais e não entendia as pausas quando o olhar dela se perdia entre o espaço do pára-brisas e os fios de cabelo que pendiam na testa dele. Dizia que quando alguém se perde assim no olhar é porque muito pensa, e interrogava. Sem êxito. Ela silenciava. Ela era de um cuidado com as palavras e de uma ânsia por saber mais daquele sotaque charmoso dos interioranos. Brincava. Ele exercitava com ela a sua própria liberdade num falar que não mede conseqüências, sem o menor cuidado. Ela buscava o amor, ele se contentava com o acaso. E ali, debaixo da noite chuvosa que determinaria o destino das próximas horas, tudo seria como tinha que ser. Eles entregariam seus corpos a um prazer não rotineiro a ambos e consumariam algum ápice qualquer de satisfação. Ela certamente iria descobrir nos próximos dias uma vontadezinha de vê-lo de novo, só pra variar, e quem sabe poder desfrutar mais da companhia, das mãos, das caretas, do sorriso. Ele, claro, se esquivaria. Ela constataria mais um tiro ao alvo desperdiçado. Alvo errado. E seguiria com uma esperança mais tímida. Somente isso. Ela só não contara com tamanho senso de responsabilidade. Como não?! Antes que tudo isso acontecesse, um vislumbre, ele avisaria por A + B a que vinha. Vinha pra escancarar “verdades absolutas”. E com tanto tato que as palavras provocariam aquela sensação nauseante. Ela ali, se esforçando para entender porque ele a açoitava com tanta diligência entre um enunciado e outro, e ele com a maior certeza do mundo de que aquela era a boa ação do dia. Ela sentiu algum alívio quando ele partiu. De alguma forma ela se vira liberta daquela seção de tortura verbal e moral. Mas quando virou pra girar a chave e trancar de vez aquela história de onde ela nunca deveria ter ousado sair, percebeu o sangue. Se esvaía manchando de rubro tudo que havia pela frente. E por mais que tentasse, ela não conseguia estancar. As feridas eram enormes. Como é que ele tinha feito isso? Como? Ela nem desconfiou. Tão distraída, a pobre. A pergunta nos dias que se seguiram, no entanto, era outra. Por quê? Quando conseguiu se ver livre do sangue, ela, e não só ela, mas todas as pessoas em volta podiam ver as marcas, grandes, profundas. E queriam que ela se calasse. Que estancasse também os gritos, o choro e toda aquela tristeza polifônica. O que ninguém podia perceber é que, além das novas, ele havia aberto velhas feridas, machucaduras que teimavam não cicatrizar. E ardiam. Ela precisava urrar até sentir algum alívio. Ela só queria suturar de vez toda aquela trama de dor. E ela entendeu que podia ser a chance da sua vida. Era, afinal, a que ele tinha vindo. Pra ajudá-la naquela difícil tarefa. Porque, claro, ele jamais saberia, mas um pouco mais adiante, ela encontraria mãos que procurariam as suas, olhos preocupados com detalhes como o modo como os olhos dela mesma se apertam quando sorri e os dois se perderiam em pausas com o objetivo simples e único de eternizar isso a que ambos chamariam de amor. Verdade absoluta!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Prêmio Consolação





P.S.: Presente da minha Juaninha. Não há nada mais acalentador do que sentir o carinho de uma mão estendida pra nos tirar do poço. Te amo, Lininha!!! Obrigada, minhas amigas, minha irmã, meus tesouros reais na Terra! Amo vocês!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

You're what I couldn't find...





Dreams

The Cranberries
Composição: N.Hogan & D.O'Riordan

Oh my life
Is changing everyday
Every possible way

Though my dreams
It's never quite as it seems
Never quite as it seems

I know I felt like this before
But now I'm feeling it even more
Because it came from you

And then I open up and see
The person falling here is me
A different way to be

La larara larara larara la

I want more
impossible to ignore
impossible to ignore

They'll come true
impossible not to do
impossible not to do

And now I tell you openly
You have my heart so don't hurt me
You're what I couldn't find

A totally amazing mind
So understanding and so kind
You're everything to me

Oh my life
Is changing everyday
In every possible way

Though my dreams
It's never quiet as it seems
Cause you're a dream to me

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sua não, Minha Sorte!

Proposta para a aula de Estética das Mídias: trazer uma obra de arte. Poderia ser uma poesia, uma música, uma fotografia, um vídeo, etc, etc, etcsss.

Vi ali o momento pra trabalhar algo que é quase como uma extensão de mim. A poesia, essa arte que inebria, que clama, que sangra e que sorri, tudo numa proporção ampliada pela paixão do verbo.

A orientação da professora era para que escolhêssemos algo de que gostássemos, que falasse conosco. Entre tantos autores, poetas, filósofos e pensadores consagrados, afora aqueles nem tão consagrados assim, optei por algo mais pessoal, mais próximo de mim, muito próximo, aliás, há apenas duas mesas!

E a repercussão da exposição do texto em aula para os colegas presentes foi tão boa que a pauta virou sugestão da professora para o trabalho final! Eu disse que essa menina ia longe, eu disse! Eu mesma fiz questão de a levar pra dentro da sala de aula da pós graduação lato-sensu da USP.



Sobre quando não há ninguém, embora haja

Estamos sozinhos. Ele e eu. Eu numa ponta da sala comprida. Ele na outra. Ponta. E ponto.

Silêncio de vozes presenciais. Vozes somente dos meios. Outros, que não nossa fala muda. Barulho apenas de quem não está. Para quem compartilha, nada. Vazio e silêncio e pronto. De pronto, qualquer rascunho humano de nós ecoa.

Diferente é só o que de mim sobra quando olho o resto do ser que não é, não sente, não percebe, não esquiva nem enfrenta. Ignóbil.

Aborrecidas elas passam. E como se não bastasse, me sorriem. As horas cruéis escorregando como lágrimas. Tristeza inclusive.

Céu se abriu e explodiu. Coração rebentou feito balão no alto. O que há são sobras das sombras assombrando o presente de medo.

Ficou a pintura borrada dialogando com o nada das paredes. Eco do silêncio na bagunça do espírito.

Valentia de estar só. Acompanhado.

sábado, 21 de agosto de 2010





P.S. 1: A música é de autoria do Sr. Shaffer Chimere Smith (mais conhecido como "dono do meu coração" ou Ne-Yo mesmo...) rs!

P.S. 2: Não é que o cara é famosinho?! http://pt.wikipedia.org/wiki/Mario_(cantor). Já ganhou espaço na minha estante do R&B! =)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Quando não poderia ser diferente

Não há decisões estabanadas, nenhuma história termina no dia em que ela realmente acaba. Há sempre um desvencilhamento anterior lento, sutil.(Como quando alguém percebe que gradualmente foi perdendo o apetite na hora em que costumava sentir mais fome).Não há aquilo que poderia ser feito de outro jeito. O aprendizado incluía as decepções e os acertos de ambos os lados.E, neste ínterim, os momentos de encontro: dos sonhos, solidões ou prantos.Não há dor que se amenize usando a força momentânea da raiva.Um coração machucado precisa de silêncio e colo, não de berrar aos quatro ventos sua falsa independência. Há ruídos que maculam o que deveria ser preservado.Há que haver gratidão pela lição que vem do que não pode ser mudado. Mas há sempre a possibilidade da transmutação.Numa desilusão, esteja atento: ninguém se perde de si mesmo porque foi abandonado. Por maior que seja a luz, não deixe que a sua sombra o encubra só porque um ciclo acabou sem explicações plausíveis.Há sempre alguma coisa nova por nascer e que precisa deste espaço.Há sempre uma história mais bonita adiante.Há sempre uma forma mais saudável de lidar com sua dor. E recriar o seu destino, tentar se harmonizar com as decisões do outro sem trazer para si as incompletudes dele, é uma forma bem mais interessante de sentir amor.

Marla de Queiroz
http://doidademarluquices.blogspot.com/2009/06/quando-nao-poderia-ser-diferente.html#links

sábado, 14 de agosto de 2010

Oh, it's something about...

Às vezes eu tenho umas paranoias. E pensar que com tantas e tantas e tantas pessoas no mundo a gente tem vontade de encontrar aquela que vai fazer a vida da gente ganhar um sentido único. Às vezes eu me sinto adolescente. Eu tenho sentimentos de uma. De verdade. E como é que eu posso me envergonhar? Sentimentos são sempre tão reais. Alguns podem dizer: mas há tantas ilusões. Mas as ilusões são reais. Eu, por exemplo, atesto, elas existem. E aí que essa semana eu fui ver o show mais importante da minha vida até hoje. Porque eu nem sou uma pessoa que já viu tantos shows assim na vida. E que eu me lembre, nenhum me causou uma emoção tão grandiosa. E eu também nunca vi de tão pertinho um ídolo tão importante, do meu mais profundo apreço. E olha que as pessoas me dizem que queriam gostar das coisas como eu gosto de algumas. Elas sentem uma pontinha de inveja da minha paixão. E eu super entendo, sabe?! Viver sem paixão é inconcebível, gente! Como é que dá pra enfrentar um mundo tão confuso, tão injusto muitas vezes, ou não, uma vida tão absurda, cheia de questionamentos filosóficos e existenciais, a rotina massacrante, sem paixão??? E eu me peguei pensando em tudo isso com tanta força nestes últimos dias de contagem regressiva. Como é, por exemplo, que dá pra entender o que um ídolo é capaz de provocar no coração de uma fã como eu? Essa relação é surreal. SURREAL! O cara nunca me viu na vida e nem vai ver. Eu sequer vou ter a chance de dizer “olá” pra ele um dia. E nem de mostrar isso aqui, que afinal de contas é sobre ele. Moramos em lados opostos, separados por um imenso oceano. Temos origens totalmente distintas. Ele nem sequer supõe a minha existência. E o meu coração tá cheinho de paixão por ele. Paixão mesmo. Porque paixão é febre. É essa coisa assim vulcânica. A emoção, a histeria, as lágrimas, o coração aos pulos ao vê-lo tão de perto, a zonzeira ao ouvir a voz dele ecoando naquela arena, a alegria e a satisfação só por vê-lo dançar tão graciosamente, as borboletas no estômago a cada caretinha, cada movimento que desenhava em seu rosto uma máscara nova, era tudo tão real. É real! Eu vivi cada uma destas sensações na pele, na minha pele, como posso duvidar? Eu senti! Eu! E um dia depois eu continuo embriagada, cantarolando as músicas, revivendo na memória aquele dia, aquela hora, foi uma hora, só uma. E eu já tenho saudade. Saudade. Queria vivê-la de novo se fosse possível. Porque se fosse possível, seria a única chance de estar pertinho dele assim. E puxa, ele nem sequer supõe minha existência. Por outro lado é quase como a sensação após a sublimação que algumas drogas causam. É um estado depressivo. Porque eu fico pensando... aliás, esse sempre foi o meu problema mesmo... pensar. Minha irmã costuma dizer que as pessoas como eu são as que mais sofrem na terra... porque elas pensam demais. E quem muito pensa, muito se questiona. E são cada vez mais perguntas e menos respostas. Mas voltando deste pequeno parêntese... por outro lado... quem é ele pra me causar tamanho furor? Um homem. Um ser humano com direito a tudo, tudinho, que faz parte da minha natureza também, a humana. E é interessante então constatar o poder dessa coisa chamada estrela, fama, show business ou sei lá o que. O fato é que me sinto "apaixonada" por alguém que nem supõe que eu exista e que ainda por cima só está num degrau inalcançável na minha própria ilusão. Será? Mas as ilusões são reais...



terça-feira, 10 de agosto de 2010

É sexta-feira 13!!!





P.S.: Quatro anos esperando por esta visita. Semana muuuuuuito especial. Coração (de fã) a mil!!!

domingo, 8 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

“Eu gosto de aprofundar vínculos”. Sou capaz de fazer poesia até no consultório da minha terapeuta. Graças! E hoje é um daqueles dias em que saí de lá me perguntando se isso realmente vai funcionar em algum momento. Porque o nó na garganta tá me fazendo sentir frio na barriga. Aquela sensação nítida de algo ruim a espreita. A gente cava a própria cova e depois fica se perguntando: pra que, meu Deus? Me sinto nua hoje. Tirei as vestes, me expus demais, mais uma vez. Como se fosse a última! Como se eu fosse madura o suficiente pra guardar a lição e assim não cometer os mesmos erros lá na frente. Essas seções de terapia têm servido pra deixar mais evidente pra mim mesma o tamanho do mosaico que mora aqui. Alma multifacetada. É como se eu estivesse o tempo todo correndo pra alcançar alguma coisa que de verdade eu nem vejo. E justamente agora me sinto naquela fase em que já perdi quase totalmente o fôlego, mas continuo, porque tenho a impressão de que se eu parar perco o bonde. A saudade, o vazio, essa confusão de teoremas emocionais, a solidão, a pressão de uma sociedade que me cobra sanidade. Pra que sanidade? Se eu não posso pôr pra fora o que tá me fazendo queimar por dentro, o que fazer então? Eu não dou conta disso tudo só em mim. Eu sou humana, porra! HUMANA! Sou tão humana que admito que parte dessa coisa aqui na minha barriga é conseqüência dos meus erros, mas não só. A gente não comete nada sozinhos, nem pecado. Mesmo assim eu me sinto uma criança mimada quando não dou conta de fazer minha auto análise e preciso tanto me agarrar ao olhar do outro. Porque eu preciso tanto da opinião alheia? Eu estou aqui pensando: talvez essa minha auto flagelação seja justamente isso, tomar a acusação leviana daqueles que me julgam pra mim mesma e fazer dela o meu norte. Porque às vezes me deparo com meu próprio olhar de generosidade pra comigo mesma. E me sinto bem, eu acho mesmo que tem muita coisa bonita aqui. Que pena que isso não dure tanto quanto uma vida. Existe uma revolta, existe alguma coisa mal resolvida, e por mais que eu tente dar nomes, eu erro sempre. E acabo me machucando de novo, envolvo outros sentimentos, que nem me pertencem. Atiro pra todos os lados pra ver se acerto o alvo. Mas que alvo? Meus planos para um futuro bem próximo se resumem a coisas que indicam meus anseios mais imediatos: programar as férias num SPA, longe de tudo que me é pessoal, inserir na minha rotina atividades que aprofundem meu contato com o universo, com a natureza, buscar práticas que me ajudem a ter algum equilíbrio, que é tudo que me falta. Talvez eu goste mais de mim equilibrada. Não sei, nunca fui, não me conheço assim. Mas o fato é que eu estou conscientemente correndo atrás de equilíbrio, sobriedade e organização. Eu que sou rebelde demais pra ser a boa moça, acho que a experiência pode me trazer algum ganho, nem que seja descobrir que eu nunca vou ser nada disso. E não há unissonância em nada, nem mesmo neste texto, que espelha toda esse caos que é minha alma hoje.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Em alto e bom agudo!



P.S.: Quem me contar o nome da música que ela emenda no meio, aos 3:10 minutos do vídeo, ganha um beijo na bochecha! :P

quarta-feira, 21 de julho de 2010

(Comun)ic(ação)

"O que passa através da interface? Outras interfaces. As interfaces são embutidas, dobradas, amarrotadas, deformadas umas nas outras, umas pelas outras, desviadas de suas finalidades iniciais. E isto até o último invólucro, até a última pequena dobra. Mais uma vez se há conteúdo, devemos imaginá-lo como sendo feito de recipientes encaixados, aglomerados, prensados, torcidos... O interior é composto por antigas superfícies, prestes a ressurgir, mais ou menos visíveis por transparência, contribuindo para definir um meio continuamente deformável. Tanto é assim que um ator qualquer não tem nada de substancial para comunicar, mas sempre outros atores, outras interfaces a captar, deslocar, envolver, desviar, deformar, conectar, metabolizar.

A primeira interface de nosso corpo é a pele, estanque e porosa, fronteira e local de trocas, limite e contato. Mas o que esta pele envolve? No nível da cabeça, a caixa craniana. E nesta caixa? O cérebro: uma extraordinária rede de comutadores e de fios entrelaçados, eles mesmos conectados por inúmeros (neuro-) transmissores.

A função reprodutora faz com que se juntem (interfaceia) os dois sexos e constitui o corpo inteiro enquanto meio, canal ou recipiente para outros indivíduos. O aparelho circulatório: uma rede de canais. O sangue, um veículo. O coração, um trocador. Os pulmões: uma interface entre o ar e o sangue. O aparelho digestivo: um tubo, um transformador,um filtro. Enzimas, metabólicos, catalisadores, processos de codificação e decodificação moleculares. Sempre intermediários, transportadores, mensageiros. O corpo como uma imensa rede de interfaces.

A língua: uma trama infinitamente complicada onde se propagam, se dividem e se perdem as fulgurações luminosas do sentido. As palavras já são interfaces, colocadas em ressonância por uma voz, distendidas ou torcidas por um canto, estranhamente conectadas a outras palavras por um ritmo ou rimas, projetadas no espaço visual pela escrita, padronizadas, multiplicadas e colocadas em rede pelo impresso, mobilizadas, tornadas tão leves na ponta dos dedos pelo programa... vestimentas multiplamente revestidas, arrepios diversamente peturbados por outras palpitações.

Cada instante não é nada além de uma passagem entre dois instantes. Uma pletora indefinida e ruidosa de veículos, de canais, de intérpretes, e de emissários constitui o fundo do devir. Angelos: o mensageiro. Sempre polifônico e por vezes discordante, eis o coração irisado dos anjos."

Pierre Lévy
As Tecnologias da Inteligência O Futuro do Pensamento na Era da Informática
Editora 34

sábado, 17 de julho de 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

É isso aí!

Eu me dou o direito de permanecer calada. Nos dou o direito do convívio menos desconfortável possível. Me dou o dever de apagar com uma borracha bem grande e definitiva essa imagem que você e todas as outras pessoas constroem de mim, ou eu mesma construo pro mundo e o mundo reflete, como um espelho, toda essa carga negativa. Eu me dou o direito de ficar magoada com isso e com tantas outras indelicadezas. Me dou o dever, no entanto, de fazer algo a respeito, porque a falta de sensibilidade é algo pavoroso pra mim, começando pela minha própria. E por isso, me dou o dever de fazer transparecer as coisas que parece, só eu mesma, e raras pessoas, podem ver aqui. Raras. A estas, eu me dou o direito do silêncio. Elas são capazes de próprias explicações. Às demais, eu me dou o dever do silêncio. Elas não precisam de qualquer palavra, julgam ter todas. A propósito, retomando o rumo desta prosa, eu me dou o dever do distanciamento, por ser esta tarefa árdua e dolorida, mas não tanto quanto uma meia proximidade, já que eu não posso estar tão perto quanto gostaria. E eu te dou assim o direito de estar no lugar onde você quer estar, na minha caixinha preciosa das amizades, aquela que contém todos os perfumes, cores, sabores e belezas inimagináveis. Caixinha valorosa, ou melhor, sem valor estimável. Eu te absolvo do dever de “descativar-me”, o tomo pra mim mesma. Já que, bem provável, foi involuntário, mas saiba, de ambas as partes. Porque eu me dou o direito de experienciar novas palpitações, e assumo os meus próprios riscos. E para tanto, me dou o direito de expurgar isso aqui, porque já deixou de ser gostoso, então não mais me serve!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ah... a gente não pode conhecer tudo na vida, a gente não pode estar em todos os lugares. É por isso que temos amigos. Para eles serem nossos olhos e nossos ouvidos, nossa vida estendida."

Camila Caringe
http://camilacaringe.blogspot.com/




segunda-feira, 12 de julho de 2010

tic-tac tic-tac tic-tac...

"Irmã": do significado ao sentido da palavra

Afora essa dor profunda, o que eu posso dizer? Que você é melhor que eu? Ou que eu tendo a ser egoísta, individualista e cruel na minha própria angústia? Eu deveria lamentar as perdas quando não sou capaz de amar quem está ao meu lado? O que eu posso dizer? Que sentir essa tremenda solidão é das coisas mais intensamente sofríveis que eu já experienciei e que mesmo assim parece que eu me recuso a sanar um pouco desse absurdo tomando a sua mão? Porque no fundo eu sei que preciso tanto de você quanto do ar pra respirar, e em momentos de devaneio terrorista eu imagino como seria não te ter aqui. E eu tenho certeza que neste dia nem eu estaria também, e se estivesse, não estaria um segundo depois por vontade própria. Você conhece a dinâmica dos últimos meses? É assim: eu ponho meu corpo e meu cérebro em movimento todos os dias pela manhã e tenho que tomar todo o cuidado do mundo pra enganar ambos porque se eles perceberem que estão vivos a despeito dessa dor dilacerante que os corta, podem se rebelar. E eu tenho me esforçado, acredite, esperando o dia em que tudo isso vai voltar a ter algum sentido. E quando mais eu colocaria em prática esse meu lado rebelde “com causa”? Você há de convir que ir além da dor pra mim sempre significou pegar o atalho da rebeldia! Como é que agora você me pede pra ser madura? Como eu posso ser mulher numa hora como essa? Como eu posso deixar de ter tanta dificuldade de dizer um “eu te amo” dos grandes na sua cara por meio de gestos se eu ainda não sei fazer isso com os lábios? É difícil acreditar, eu sei, mas isso não muda nada, e não muda o fato de que eu te amo mesmo, e de que hoje você é definitivamente o maior amor da minha vida, o maior! Me ajude então, eu peço. Com a paciência generosa que sempre foi sua marca menos berrante perto da beleza toda que te cai tão bem. Eu vou tentar, isso eu prometo! Vou tentar trazer as coisas pra mais perto de um status “normal”. Vou tentar subir no carrossel de novo, mesmo estando ele num movimento frenético e descontrolado. Eu vou trazer as coisas pra órbita, só preciso de um pouco de compaixão. E você sabe me dar isso a conta-gotas, nem muito, pra não me deixar perder o passo, nem pouco, pra me dar algum compasso. Me perdoa por cada lágrima a mais neste tempo de tanto choro. Esteja aqui, amanhã, sim?! Em todos os meus amanhãs...

sábado, 10 de julho de 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

É...

De um universo a outro.

É difícil mudar de casa. Sair da casca. Deixar o quentinho do cobertor. Sair do banho e alcançar a toalha. Mudanças são contrastes de estados e, por isso, doloridas. É nascer de novo sair de uma relação para o vazio. Ou para outra. É preciso coragem e ruptura. É preciso acreditar. Comum permanecermos imóveis por mais que o suportável. Sair do banho e agachar enrolado na toalha, pensando na vida. Demorar um tempo até tomar coragem pra mudar de posição. Mudar é um parto, sempre. Mesmo que o novo mundo seja melhor. Diante do universo inteiro que se anuncia novo, o de alguém que chegou de surpresa, muitas vezes nos acovardamos.


Cris Gerra
http://amoreponto.blogspot.com/

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Comigo isso acontece o tempo todo...

Você, esse sonho. E eu, esse leve sono. Seria demais pra mim. Em qualquer circunstância seria. Toda essa sua educação, essa gentileza que ultrapassa o status da realidade massacrante desse mundo que é tão real. Quando tudo que eu queria é o irreal. Se de alguma forma o meu lado bom pudesse te alcançar! Como um anjo com asas e plenos poderes. E você nem sabe. Ou sabe. Mas não importa. Não mesmo. Porque qualquer que seja o futuro, eu nunca serei digna de estar lá. Não do seu lado. Não digna de toda essa sua nobreza. E tinha que ser assim, um sonho bom, um platônico amor que se fizesse tão impossível quanto todos os outros que já passearam por aqui, por essa terra tão cheia de desencontros. Eu fico me perguntando então pra quê. Esses encontros que só nos fazem lamentar. Que ardem na carne como o fogo, e nos aquecem como o sol, meu Deus! Tanta sintonia assim sem mais? E esse meu sorriso que às vezes parece mais brilhante quando é você quem o provoca. E esse jogo-devaneio. Me machuca. E eu nem tinha percebido. Eu tinha. Mas nem tanto. Pratico contigo, e só contigo, o exercício da covardia. Porque eu jamais ousaria. Não nesta vida. Eu agora percebi que gosto de você desde um sempre que nunca será pra sempre. Quem dera fosse apenas por enquanto...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

Seis meses...

... e a dor, e a saudade, são tão profundas... quanto sempre serão!!!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Como sempre ela sabe o que se passa por aqui...

Desafeto

Não quero mais o beijo molhado, o derretimento castanho dos olhos, o sorriso sacana. Não creio mais em tardes febris ou saudades desesperadas. Tudo é verbo, verso, papo furado. Tudo pode ser rasgado, cuspido, jogado no lixo. Obra prima perdida em rasuras. Poesia sem calor de corpo. Paixão destituída de loucura. Fogo morto.

Não quero mais o encaixe de tudo, o perfume da pele, a carícia dos dedos. Não creio mais em noites acesas, em madrugadas intensas, em manhãs de luxúria. Tudo é fome e desejo de saciedade. Tudo é espera por novidades. Displicência de afetos, perda de tempo, sexo sem vontade.

Não quero mais sensações de eternidade, abraços pra sempre, sussurros de amor. Creio em frases desacompanhadas, em palavras cruas, textos sem autor. Tudo é falta de comprometimento, tudo é vácuo, vazio, relento. Tudo é falta de rumo, um peito apertado, tristeza sem dor...

Marla de Queiroz

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Como pode ser?

Acredite ou não, eu nunca quis fazer disso uma guerra. Não mesmo! Mas sou incapaz de incutir na sua percepção minha natureza humana. Só posso crer que chegamos longe demais. Ultrapassamos os limites que nos cerceavam e violentamos princípios tão importantes. Nisto sim, eu reconheço minha culpa. Na ânsia de me tornar alguém melhor, de me apropriar de valores convictos e nem sempre inerentes a mim, muitas vezes me deixei confundir entre o limiar de ser quem quero ser e ser quem sou. Porque somos parte essência, parte instinto. E essa palavra nunca me soou bem. Meus instintos me levam sempre a lugares onde me descubro insatisfeita de estar. Tudo isso só aflora ainda mais essa minha auto-piedade. Eu tenho tanta pena de mim! Me julgo tão absurdamente incompreendida e injustiçada. Me sinto tão machucada. E você nem sabe da parte que lhe cabe nisso. Porque no fundo todos nós estamos justificados aos nossos próprios olhos. Mas é difícil enxergar essas justificativas quando elas pretendem anular a ferida que está aberta em nós, não é mesmo?! O fato é que ninguém é de todo bom, nem de todo mau. Nem eu nem você. Não me condene com tanta frieza, então, por favor. É só o que eu peço. Que é pra ver se eu consigo deixar de lado essa sensação que me tomou há dias de que não conheço esse você de agora. Tanta frieza, tanta rudeza, tanta falta de generosidade não cabem nesse você que eu só aprendi a conhecer no âmbito do amor que permeou o universo de um remoto “nós”. E eu desconheço a face agressiva que quer se impor sobre as recordações minhas agora. São minhas. Não queira tirá-las de mim! Esse direito não é seu e nem eu vou concedê-lo a você. Faça o que achar que deve fazer, sinta o sentimento que melhor lhe convir, desfrute do convite do amor e se ocupe da felicidade. Ela dá um trabalhão e exige grande responsabilidade e comprometimento. Não despenda sua energia comigo. Definitivamente, eu concluo que prefiro seu total desprezo, às apunhaladas que tenho recebido sem me achar minimamente digna delas, a despeito desse “coitadismo” que me é tão meu.

P.S.: A produção frenética após dias e dias de silêncio poético traduz uma das pontas que me provoca todo esse caos literário. Não estou feliz. Então isso revela o estado de espírito em questão!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A cena se repetiu mil vezes, talvez mais, o dia todo! Os dois ali, enamorados, apaixonados. Abraçados como se fosse a última vez, felizes como se fosse a primeira. Como em uma cena de filme, mas desta vez, ela mesma fazia parte. Era coadjuvante-espectadora. Falante, na empolgação da conversa com a amiga que, muito gentilmente, a acompanhava ao café, não prestava atenção aos estranhos todos que compunham o quadro que dali há pouco se desenharia. Olhava pra tudo e pra todos sem prestar atenção em nada nem ninguém. E continuava falando, caminhando apressada, gesticulando, como de praxe. Quando, de repente, uma frase captura seu olhar para um ponto: “Ownn, que romântico!” Falava a amiga sobre o casal parado bem em frente ao portão, ao lado da banca de jornal. Trocavam um beijo absoluto, absortos e inertes ao mundo que os cercava. Se abraçavam carinhosamente. Seus olhos se fixaram primeiro na moça. Mas dela, nenhum detalhe apreendeu, perceberia depois, apenas formas genéricas. Um fragmento de segundo depois e ela pensou reconhecer aquele sorriso. Era o mesmo sorriso... “brincalhão dolorido, um sorriso que carregava o peso do mundo, não sem equilibrá-lo trocando-o nas mãos como malabares entorpecidos... aquele sorriso largo, aquele sorriso dela... só dela..., o sorriso de menino que ela tanto gostava... o sorriso que dava uma pontadinha de vida exuberante por dentro... aquele sorrisão leviano e juvenil que arrancava do peito dela uma saudade censurada...” Um lapso de segundo foi o que se demorou pra que ela se desse conta... já não era pra ela que ele sorria. O sorriso não mais lhe pertencia, se é que lhe pertencera algum dia. Uma pontada no peito a fez recobrar a consciência e o barulho da metrópole barulhenta que ainda se espreguiçava na manhã fria daquela sexta-feira doída voltou a fazer parte da cena. Ela sussurrou duas vezes à amiga o nome dele pra que a mesma se desse conta da gravidade daquele flagrante, e num puxão abrupto tirou as duas dali. Não podia parar, as pernas tremiam, as mãos, a cabeça, tudo girava. Elas caminhavam rápido em direção ao destino pré-proposto: o café. Mas ela já não se lembrava. Sussurrava algo enquanto a mesma cena, os dois ali, se grudava à memória dela, e dali não sairia pelo resto do dia... quem sabe dias, semanas até. A amiga, inconformada com tamanha casualidade, tentava acalmá-la, reanimá-la talvez percebendo a sua inércia. Mas os próximos passos, pedir o café, pagar a conta, fazer o caminho de volta, nada disso esteve no plano de sua consciência, e como num passe de mágica, ao voltarem ao ponto do “encontro”, nada mais havia ali. Nem sinal do casalzinho que minutos antes enfeitava a paisagem da avenida impessoal e monótona. Ao passar para dentro do portão olhando o espaço vazio, por um momento, ela se deu ao desfrute de imaginar que tudo não passara de um repentino pesadelo. Mas a sensação de alívio nem chegara a lhe fazer companhia. Ela sabia. E tentava se concentrar apenas na felicidade que apreendera daquele sorriso imaginando todo o bem que ela quisera tanto ter podido fazer a ele e que por algum motivo que lhe escapara julgava ter fracassado. Mas agora ali estava. Ao menos o sorriso estava. E de alguma forma racional ela tentava se convencer de que a dor não fazia sentido se ele estava feliz, e se ela já não era o mal que o impedia de exibir o sorriso que tantas vezes lhe dera todas as respostas que ela jamais perguntaria... e de novo aqui está... a escrever sobre o tal sorriso... que não a deixará vazia de lembranças... as mais doces e não menos chorosas... por quem sabe quanto tempo...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Silêncio é o que me convém. Já dizia algum sábio: “Não tem o que dizer? Não diga!” Eu tenho uma porção de coisas pra dizer. Mas sabe que sentimentos precedem essa “porção”? Eu sinto um amarrado bem no meio do peito. Eu sinto uma pressão na minha cabeça. E aquela coisa engruvinhada no meio da garganta. E aquele vaco no estômago. Então, se a porção tá fazendo todo esse estrago em mim, por que eu compartilharia? Por que, se eu só abro a boca pra falar com gente querida, com gente conhecida, com gente amiga, com gente amada? As palavras são tão importantes, né?! Se todo mundo tivesse esse entendimento! É um despautério o que a palavra pode provocar. Como ela pode atingir! Eu me sinto assim, muitas vezes, espancada pela palavra. To assim hoje, tenho estado nos últimos tempos. To machucada, dolorida e maculada! Isso sem contar quantas vezes eu fiz isso com o outro. Isso sem contar o estrago que a “não-palavra” também é capaz. Se eu só quisesse amar, se eu só quisesse amor, teria que inventar outra forma de comunicar, que não a palavra. Mas daí eu já não pensaria, nem mesmo existiria. E quando a minha própria palavra me açoita? E não é que um bocado de gente já percebeu esse meu sado-masoquismo? Como se a gente pudesse expurgar a dor alucinante assim, soltando palavras a “torta e a direita”! Como se a gente pudesse transformar a morte em alguma coisa menos cruel e o amor em alguma coisa menos obscura. Como se a gente pudesse fazer da inveja um sentimento de querer tão bem que bem quisesse. Como se a gente pudesse entender melhor os pensamentos todos assim, exteriorizando fantasmas. Pior que a gente pode, acredite! De tudo que eu tenho dito nos últimos meses, só uma coisa eu tenho calado. E no fundo é o que contrapõe essa minha fome pela palavra. Porque na verdade a palavra e a vida se confundem em mim. Então, fato, a morte, essa morte dilacerante que me abraçou com o advento da partida, não encontra palavra por aqui pra se materializar. Por outro lado, é com rudeza que eu muitas vezes quero falar de amor. E fico mais é parecendo um animalzinho acuado. Tem tanta coisa fora de lugar. Tanta coisa precisando encontrar seu rumo. Tanto choro pra ser chorado, ao invés de falado. É isso! Eu não posso mais falar meu choro. E nem chorar palavras...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Quem sabe...

Um dia eu vou entender que não preciso implorar ao amor, porque ele se entrega sem querer nada em troca. Um dia eu vou encontrar um coração que vai reconhecer o meu pelo som do silêncio na pausa que entrecortará nossas batidas e no segundo sem respirar que vai preencher os próximos sonhos. Um dia eu vou entender porque o não vem sempre que eu digo sim e porque essa teimosia em querer encontrar a resposta pro não amor se afinal ele prefere se calar. Um dia eu vou ser capaz de não escrever quando meu coração estiver tão cheio de poesia triste. Um dia certas canções vão deixar de repetir o seu nome. Assim espero...

sábado, 15 de maio de 2010

Flagra

E se eu disser que o seu medo não me convence? Você me dirá que não tem medo, que a vida é curta e que o hoje é seu único prisma quando olha pro mundo. E se eu disser que os seus olhos me dizem a verdade que eu gosto de apreender de você? Você me dirá que é genuinamente verdadeiro em tudo o que diz e faz. Mas você não pode calar os gritos que evocam os nossos beijos, isso não! Muito menos a ligação tão forte que se faz audível, visível, sensível, flagrante no ápice do prazer que nós dois promovemos juntos com a perfeita intersecção de nossos corpos. Não há protagonistas nessa relação permeada por tanto antagonismo. Os sentimentos mais latentes é que coadjuvam a nós, meros fantoches nessa peça que o amor nos pregou.



terça-feira, 11 de maio de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Esse meu amor semi-perfeito...

Eu me forço a recuperar momentos sublimes como naquele dia, quando eu não contive o choro, e você muito sutilmente puxou-me para o teu abraço. Eu faço isso o tempo todo. Porque prefiro a doçura destilada tantas vezes por teus olhos do que essa frieza pronunciada em palavras. É porque eu não fui preparada pra lidar com alguém que eu não conheci. E eu nunca conheci esse você que não gosta de mim! Esse você que prefere a minha completa inexistência, que se abstém assim tão duramente de mim e desse meu amor semi-perfeito. Eu não sei pensar o fim dessa paixão que nos ofuscou as almas. Que nos levou aos lugares tão nossos, um do outro. Eu não sei abdicar desse sentimento de pertencimento que você me descortinou. Essa sensação de saber o endereço de pra onde a gente sempre quer voltar. E eu continuo querendo voltar pra esse lugar.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O tempo não PAR(SS)A...

Tive curiosidade de saber o que eu estava pensando há exatos 365 dias. Descobri que um ano pode mudar muita coisa... ou não.



(RE)(Re)leituras...

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”.

Caio Fernando Abreu

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Achados

Esse medo a gente não procura com as mãos. Ele brota. Invade o espaço tênue entre a racionalidade e a paixão. Deve ser porque quanto mais a gente se inclina menos a sola dos pés sente o chão e o domínio é só uma questão de fragmentos, de partículas. É que a gente vai notando que precisa mais do sorriso do que precisava no sorriso anterior. E a saudade assume formas infinitas e indefinidas como a bailarina que troca de figurino com tamanha habilidade que o tempo passa despercebido aos olhos do espectador. E a gente também se dá conta do tamanho do estrago que a falta vai fazer se se fizer. E as imperfeições próprias, elas crescem, você nem imagina, elas ganham uma força absoluta e se fazem ameaçadoras. Elas ficam insinuando que vão criar uma não tolerância. Porque a intimidade é traidora, e pode ser tão perigosa quanto proporciona cumplicidades deliciosas. Em resumo, eu olho pra fortuna que tenho nas mãos e fico achando que não vou ser hábil o bastante pra permanecer com ela. Porque no fundo eu sei que nem tenho mesmo. A fortuna é ferramenta de felicidade e prazer, ela tem que estar livre para o movimento. Mas eu tenho medo é do movimento, eu tenho medo é de não ser capaz de dançar o balé perfeito e perder o passo e o compasso.



P.S.: E o movimento do tempo põe tudo em desalinho. E o medo? Não sei. Deve estar bailando em outros carnavais!