sexta-feira, 28 de maio de 2010

A cena se repetiu mil vezes, talvez mais, o dia todo! Os dois ali, enamorados, apaixonados. Abraçados como se fosse a última vez, felizes como se fosse a primeira. Como em uma cena de filme, mas desta vez, ela mesma fazia parte. Era coadjuvante-espectadora. Falante, na empolgação da conversa com a amiga que, muito gentilmente, a acompanhava ao café, não prestava atenção aos estranhos todos que compunham o quadro que dali há pouco se desenharia. Olhava pra tudo e pra todos sem prestar atenção em nada nem ninguém. E continuava falando, caminhando apressada, gesticulando, como de praxe. Quando, de repente, uma frase captura seu olhar para um ponto: “Ownn, que romântico!” Falava a amiga sobre o casal parado bem em frente ao portão, ao lado da banca de jornal. Trocavam um beijo absoluto, absortos e inertes ao mundo que os cercava. Se abraçavam carinhosamente. Seus olhos se fixaram primeiro na moça. Mas dela, nenhum detalhe apreendeu, perceberia depois, apenas formas genéricas. Um fragmento de segundo depois e ela pensou reconhecer aquele sorriso. Era o mesmo sorriso... “brincalhão dolorido, um sorriso que carregava o peso do mundo, não sem equilibrá-lo trocando-o nas mãos como malabares entorpecidos... aquele sorriso largo, aquele sorriso dela... só dela..., o sorriso de menino que ela tanto gostava... o sorriso que dava uma pontadinha de vida exuberante por dentro... aquele sorrisão leviano e juvenil que arrancava do peito dela uma saudade censurada...” Um lapso de segundo foi o que se demorou pra que ela se desse conta... já não era pra ela que ele sorria. O sorriso não mais lhe pertencia, se é que lhe pertencera algum dia. Uma pontada no peito a fez recobrar a consciência e o barulho da metrópole barulhenta que ainda se espreguiçava na manhã fria daquela sexta-feira doída voltou a fazer parte da cena. Ela sussurrou duas vezes à amiga o nome dele pra que a mesma se desse conta da gravidade daquele flagrante, e num puxão abrupto tirou as duas dali. Não podia parar, as pernas tremiam, as mãos, a cabeça, tudo girava. Elas caminhavam rápido em direção ao destino pré-proposto: o café. Mas ela já não se lembrava. Sussurrava algo enquanto a mesma cena, os dois ali, se grudava à memória dela, e dali não sairia pelo resto do dia... quem sabe dias, semanas até. A amiga, inconformada com tamanha casualidade, tentava acalmá-la, reanimá-la talvez percebendo a sua inércia. Mas os próximos passos, pedir o café, pagar a conta, fazer o caminho de volta, nada disso esteve no plano de sua consciência, e como num passe de mágica, ao voltarem ao ponto do “encontro”, nada mais havia ali. Nem sinal do casalzinho que minutos antes enfeitava a paisagem da avenida impessoal e monótona. Ao passar para dentro do portão olhando o espaço vazio, por um momento, ela se deu ao desfrute de imaginar que tudo não passara de um repentino pesadelo. Mas a sensação de alívio nem chegara a lhe fazer companhia. Ela sabia. E tentava se concentrar apenas na felicidade que apreendera daquele sorriso imaginando todo o bem que ela quisera tanto ter podido fazer a ele e que por algum motivo que lhe escapara julgava ter fracassado. Mas agora ali estava. Ao menos o sorriso estava. E de alguma forma racional ela tentava se convencer de que a dor não fazia sentido se ele estava feliz, e se ela já não era o mal que o impedia de exibir o sorriso que tantas vezes lhe dera todas as respostas que ela jamais perguntaria... e de novo aqui está... a escrever sobre o tal sorriso... que não a deixará vazia de lembranças... as mais doces e não menos chorosas... por quem sabe quanto tempo...

3 comentários:

Iêda disse...

É, momento difícil de ser visto, mas não impossível de esquecer! E estou aqui torcendo para que seja esquecido. bjão

Amanda Proetti disse...

Vou esquecer! Nem que seja na base do tapa, mas eu vou!!!

Camila Caringe disse...

Tempo.