sábado, 2 de outubro de 2010

Ela procurava as mãos, ele, as partes íntimas. Ela gostava do jeito como ele fazia caretas ao enunciar alguma estória, os olhos se dilatando e os dentes se evidenciando em sorrisos espaçosos. Ele achava que ela falava demais e não entendia as pausas quando o olhar dela se perdia entre o espaço do pára-brisas e os fios de cabelo que pendiam na testa dele. Dizia que quando alguém se perde assim no olhar é porque muito pensa, e interrogava. Sem êxito. Ela silenciava. Ela era de um cuidado com as palavras e de uma ânsia por saber mais daquele sotaque charmoso dos interioranos. Brincava. Ele exercitava com ela a sua própria liberdade num falar que não mede conseqüências, sem o menor cuidado. Ela buscava o amor, ele se contentava com o acaso. E ali, debaixo da noite chuvosa que determinaria o destino das próximas horas, tudo seria como tinha que ser. Eles entregariam seus corpos a um prazer não rotineiro a ambos e consumariam algum ápice qualquer de satisfação. Ela certamente iria descobrir nos próximos dias uma vontadezinha de vê-lo de novo, só pra variar, e quem sabe poder desfrutar mais da companhia, das mãos, das caretas, do sorriso. Ele, claro, se esquivaria. Ela constataria mais um tiro ao alvo desperdiçado. Alvo errado. E seguiria com uma esperança mais tímida. Somente isso. Ela só não contara com tamanho senso de responsabilidade. Como não?! Antes que tudo isso acontecesse, um vislumbre, ele avisaria por A + B a que vinha. Vinha pra escancarar “verdades absolutas”. E com tanto tato que as palavras provocariam aquela sensação nauseante. Ela ali, se esforçando para entender porque ele a açoitava com tanta diligência entre um enunciado e outro, e ele com a maior certeza do mundo de que aquela era a boa ação do dia. Ela sentiu algum alívio quando ele partiu. De alguma forma ela se vira liberta daquela seção de tortura verbal e moral. Mas quando virou pra girar a chave e trancar de vez aquela história de onde ela nunca deveria ter ousado sair, percebeu o sangue. Se esvaía manchando de rubro tudo que havia pela frente. E por mais que tentasse, ela não conseguia estancar. As feridas eram enormes. Como é que ele tinha feito isso? Como? Ela nem desconfiou. Tão distraída, a pobre. A pergunta nos dias que se seguiram, no entanto, era outra. Por quê? Quando conseguiu se ver livre do sangue, ela, e não só ela, mas todas as pessoas em volta podiam ver as marcas, grandes, profundas. E queriam que ela se calasse. Que estancasse também os gritos, o choro e toda aquela tristeza polifônica. O que ninguém podia perceber é que, além das novas, ele havia aberto velhas feridas, machucaduras que teimavam não cicatrizar. E ardiam. Ela precisava urrar até sentir algum alívio. Ela só queria suturar de vez toda aquela trama de dor. E ela entendeu que podia ser a chance da sua vida. Era, afinal, a que ele tinha vindo. Pra ajudá-la naquela difícil tarefa. Porque, claro, ele jamais saberia, mas um pouco mais adiante, ela encontraria mãos que procurariam as suas, olhos preocupados com detalhes como o modo como os olhos dela mesma se apertam quando sorri e os dois se perderiam em pausas com o objetivo simples e único de eternizar isso a que ambos chamariam de amor. Verdade absoluta!