sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Das coisas que eu não posso conceber - parte 245

Não assiste TV. Não come carne. Tem valores esquerdistas, anarquistas, até.

Milita por uma sociedade mais justa. É contra o consumismo e a escravização da publicidade. Estuda o ser humano e suas relações.

Estereótipo: alguém que pretende algo para "um futuro".

Contrariedade: Não acredita no futuro. Não faz planos.

Se aliena por meio de artifícios químicos pra fugir da "realidade". Da realidade, onde ele se sai tão "melhor"!!!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Hoje é ela quem diz...

Ofegante.

Às vezes o que me falta é descanso. O que me escapa é a pausa. Como se em uma distração a vida pudesse fugir. Minha respiração é curta como é rápido o meu pulso. Sempre alerta. A postos para não parar. Ainda mais com uma vida outra batendo fora de mim, um amor de pernas e braços que caminha sem fim pra ganhar o mundo. Tenho fobia do não fazer. E penso tanto, que nem cabe na fala. As 24 horas do dia, dou um jeito de transformar em 30, nem que seja no silêncio da madrugada. A vida sempre me diz "Não tente me controlar", mas eu finjo que não entendo. O que ela quer de mim é coragem, já disse o João. E eu faço de conta que sou corajosa. Mas faço tão bonito, que ela até acredita.

Cris Guerra - http://amoreponto.blogspot.com/

sábado, 13 de novembro de 2010

Correio - 15 de novembro

No dia depois de amanhã, onze meses terão se passado. Onze. Se eu estivesse em algum lugar muito distante, o meu peito estaria apertado de tanta saudade, e eu certamente telefonaria pra dizer do tamanho do abraço pelo qual eu estaria esperando quando visse de novo os seus olhos cor de mel.

Tem dias que eu estou ensaiando escrever pra você. Porque eu sempre soube que quando essa hora chegasse, seria um passo para a aceitação. Eu queria poder escrever cada palavra com o sangue que escorrem dos meus olhos. E eu nem preciso dizer que já no parágrafo primeiro o choro veio se sentar aqui do meu lado pra acompanhar a tessitura desta “carta”.

Eu espero, do fundo das minhas entranhas, que de algum lugar você possa sentir a saudade, a dor e o amor que você despertou em mim. E eu tenho a impressão de que só estou viva sem você porque ao contrário do corpo, que se desfaz quando da partida, o amor não. Eu nunca tinha experimentado esse tipo de amor. Esse... que cresce a despeito da falta. Que se alimenta dela, aliás. E que toma as rédeas quando a força desiste.

Eu pensei que não fosse ser possível. Juro! Eu nunca pensei, aliás, isso aqui tudo sem você. Eu ainda me culpo. Eu ainda me pego pensando em detalhes que de um instante a outro, fazem toda a diferença. Eu ainda acho que não disse tudo o que eu queria ter dito. Eu disse, ainda bem, que você era a pessoa mais importante da minha vida. Eu disse.

Eu queria tanto escutar a sua voz de novo pronunciando aquele “minha linda” que me era tão pessoal. Mas eu não queria mais escutar o seu choro e o seu gemido. E isso, eu me lembro ter pedido a Deus. Mas talvez eu, eu que confundo a vida e a palavra, eu não tenha me expressado bem. Talvez Deus tenha me interpretado mal. Não era isso. Eu só queria poder ver o seu sorriso, escutar a sua risada, mesmo tão rara.

Eu sinto sua falta de um jeito diferente de todas as faltas que eu venho colecionando ao longo do caminho, contando até aquelas que ainda não são. E eu quero que você entenda que se eu me recusei a te lembrar, a te ouvir de novo, a te ver até, nas fotografias que eternizaram o seu rosto, graças, foi porque eu não podia com a dor. Eu era menor do que a dor. Eu era muito menor. Mas eu fui percebendo que crescia, a cada dia que passava, e ia ficando maior. Eu não arrisco dizer que superei a dor em tamanho, mas talvez estejamos agora de igual pra igual. E o meu alimento foi o amor. Aquele amor que junto comigo, não parou de crescer. O amor que me fez suportar os primeiros dias, quando eu tinha certeza de que aquele buraco aberto no meu peito me engoliria de uma vez por todas. O amor que me fez ter força pra pensar nas coisas que eu precisava fazer pra estar viva no dia seguinte. O amor que me encorajou a praticar alguns desapegos mesquinhos dos quais eu ainda era refém. O amor que me possibilitou respirar todas as vezes em que eu quis parar de fazê-lo.

Eu ainda não sei pensar na sua partida. Não sou capaz de esquadrinhar isso de maneira lógica na minha mente. Mas eu já consigo lembrar de você no lugar onde você deve estar na minha vida. Porque eu confesso também que houve um tempo em que eu quis esquecer desse lugar. Foi como se num piscar de olhos eu tivesse perdido todo o meu passado. Alguém que perde a memória deve sentir algo parecido.

Eu sei que estou evoluindo. E não sei muito bem como vai ser daqui pra frente e nem exatamente em que eu acredito. Mas se você não morreu em mim, acho impossível pensar que tenha simplesmente deixado de existir. Talvez no dia em que eu deixar também. Mas quer saber de uma coisa? Pensando bem, eu acho que vou recuar dessa incerteza sobre ter filhos só pra poder prolongar a sua existência. Você não estará aqui pra mimá-lo ou pra me ensinar a ser ao menos um pouco da mãe que você foi – sim, porque, me desculpe, eu sou incapaz de crer que ainda nasça uma como você – mas ao menos ele, ou ela, vai saber desse tão grande amor.

Nos momentos mais difíceis, sabe no que eu ainda penso? Que eu não passei pela vida sem o maior privilégio que eu poderia ter tido: ser sua filha. E quando eu tenho dificuldade pra crer em Deus, eu me pergunto, quem mais poderia ter tido tamanha generosidade?

Até aqui ainda fica a sensação de que faltou dizer tanto. Mas eu também não sei se até o fim vou conseguir falar desse amor pensando na profundidade que ele ganha em mim cada dia mais.

Só eu sei o quanto eu desejaria poder imprimir essas palavras e entregá-las dobradas “em mãos”. Porque seria como sempre foi. Você me abraçaria sussurrando aquele “minha linda” em meu ouvido e eu daria um beijo gordo na sua bochecha rosada.

Eu devia ter andado de mãos dadas com você todas as vezes que saímos juntas. Devia ter dito muitas e muitas vezes mais do que eu disse o quanto eu a amo. Devia ter ficado mais tempo aqui na sala assistindo TV com você e ter gastado mais horas na sua companhia do que eu gastei. Eu devia ter ficado do seu lado todas as vezes pra ver você cozinhando. Só pra estar ali. E devia ter te dado abraços intermináveis, até você me expulsar, brava com aquela minha mania de te irritar. Eu devia ter brigado menos com você, e devia ter sido uma filha mais parecida com a que você idealizou.

Mas já não há mais tempo pra nada disso. E eu ouso escrever pra fingir que ainda posso falar com você quando eu bem quiser. Como você fazia no meio da tarde, quando se sentia sozinha e me ligava pra perguntar qualquer bobagem.

Você é a melhor mulher que eu já conheci ou ouvi dizer. E apesar de tudo, pra minha imensa felicidade, uma coisa você esqueceu de levar. Seu coração. Mas não se preocupe. Eu o guardei no melhor lugar que encontrei. Está aqui. Pulsando no lugar do meu. E bombeando a vida que você levou quando partiu.

Dizer EU TE AMO agora seria barato demais. Eu ainda não sei dizer o que é isso que você significa pra mim, MÃE!