quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

"Reflexões"

Guardei os últimos dias dentro da minha bolha de sabão. Aquela através – costumo dizer que não gosto desta palavra, mas como ela cabe em determinadas ocasiões! – da qual eu vejo o mundo e o mundo me vê.

Pensei. Lembrei. Senti. Medi. E paralelamente a tudo isso o globo continuou a girar. As coisas parecem um pouco fora de lugar. Mas talvez eu é que esteja me posicionando do lado contrário à luz.

Nas últimas noites, na contramão do que vinha me causando uma crise no trabalho, eu despertei ao luar. Eu. Quer dizer, não o despertador. Mas algo me despertou. Se não eu, algo me despertou. E eu me dei de presente madrugadas afora. Fiz “muito”, fiz “nada”, passei horas olhando pra além do teto acima da minha cama, pra além. Porque tem horas que parede nenhuma pode me conter.

Naquelas em que senti vontade de ter companhia, fui agraciada... virtuais, irreais, imaginárias e quantas mais. Nas outras em que senti vontade de ter apenas uma pessoa ao meu lado, tive também. E nos sentamos na beira da cama e passamos as horas (in)termináveis de uma madrugada acertando contas e ponteiros.

Esta noite, não sei dizer em que escala consecutiva, eu relutei. Relutei, mas cedi. E cá estou, “à luz de tela”.

Eu gostaria de dizer algumas palavras a algumas pessoas, mas não posso. E isso é absolutamente atípico pra mim. Eu me sinto às vezes tão plena de vozes ao redor que concluo que qualquer eco meu se faça desnecessário.

Do amor, eu tenho muito a dizer ainda. Eu sei. E da dor, da dor também. Mas nem um, nem outra, trazem a minha tona aquele instinto de derramar palavras desajeitadamente e com aquela fome voraz como já fez em outros tempos.

Os dias misturam sutilezas e afagos a amargores que ainda não sei adocicar. E eu tenho entendido certas coisas. Eu tenho me visto. E isso me remete ao que diz o poeta acerca do advento infeliz da invenção do espelho que nos fez deixar de ter que nos curvar para vislumbrar a imagem refletida na água corrente do rio. Eu tenho me visto. Mas não através – olha ela aqui de novo – do espelho. Eu tenho tido o cuidado de optar pelas águas do rio. Eu tenho tido o cuidado de optar por me curvar, pra me enxergar. E qual não foi a minha surpresa quando percebi me percebendo da perspectiva de outrem. Muitas e importantes. Uma delas, já distante.

Alguns “adjetivos” por meio – aqui ela não cabe – dos quais nós damos forma às coisas e às pessoas têm vindo me convidar para longos passeios repletos de histórias reais. E é estranha a sensação de ser “adjetivada”, obviamente quando com adjetivos pelos quais não temos qualquer apreço. E é mais estranho vivenciar racionalmente e reflexivamente este processo embutido na natureza humana que é o ato de “julgar”. E é ainda mais estranho constatar que, embora resultante de uma cultura não preocupada com os frutos de sua semeadura, este processo proporciona mais de um caminho.

Minha mãe se foi há exatos quase 365 dias a julgar pela falta de alguns minutos ainda, e este é um mês em que coisas – se não todas, quase – aconteceram para me trazer até este lugar. Hoje eu não choro só a sua partida como um rito já previsto. Mas junto com a partida, eu choro a estada, do ponto de vista da presença de coisas e ausência de outras que poderiam ter feito desta uma outra tão diferente. A começar pelos adjetivos que faziam parte do olhar dela sobre mim. Alguns, daqueles amargos, são repetidos – ecoados, diria –, hoje, por outras pessoas que, como ela, fazem parte da minha vida, do que eu sou hoje, alguns, talvez, do que eu já fui um dia, mas todos, certamente, do que eu serei ainda. E eu me vejo absolutamente incapaz de responder qualquer coisa. E mais, me vejo absolutamente incapaz de renegá-los. Porque são meus, porque são parte de mim. Ou melhor, estão. Eu penso que “estar” é um verbo que nos cai muito melhor do que “ser”, tendo em vista o benefício da mutabilidade que nos foi concedido, implícito até.

E do que eu dizia sobre não poder dizer... do amor, eu tenho muito a dizer ainda. Eu sei. E da dor, da dor também. Das imperfeições todas da forma que ambos assumem quando vestidos em mim, eu calo. Calo porque me contento com o todo dito por outrem. Me contento do verbo não ressinto. Me contento porque felizmente eu posso me ver, curvada, ATRAVÉS do brilho de olhos que escolhem permanecer sentados compondo a roda que cerca a minha vida, a despeito do amor, a despeito da dor, a despeito de mim.

2 comentários:

Adriana disse...

Não vejo apenas palavras aqui, vejo sentimentos. E vejo Deus em todas suas palavras.
O que dizer além de "você me emocionou de novo"?

*Livia* disse...

Pois é, aqui estiou eu. E daqui só saio se me mandar embora...
Que se passem mais 365, 1000 dias até...a sua dor vai ser mais amena, acredite e confie.
Beijos