domingo, 20 de fevereiro de 2011

Não fossem as manchetes noticiosas de amanhã, eu diria que há um gosto adocicado de paz nessa torrente de águas que ilustra minha tarde de domingo. Minha. Porque eu tenho me apropriado das coisas que se insinuam a mim com tanta liberdade. Eu diria que tenho aprendido a degustar momentos, instantes, espaços de tempo em que o encontro comigo é quase metafísico. Mas, pensando bem, esse verbo não cabe mais aqui. Não nesse lugar novo onde eu não vislumbro um traço de aflição ou angústia sequer. Não que eu julgue já ter aprendido tudo, longe de mim tal estúpida pretensão! Mas me soa melhor dizer que eu tenho degustado, que eu tenho me apropriado, que eu tenho experimentado, que eu tenho me encontrado, que eu tenho vislumbrado, a colocar o verbo “aprender” na frente de todas as coisas que eu tenho realizado com tamanha autonomia e desprendimento. É que eu não tenho mais medo de ousar. E não fico contando os minutos pra esperar que seja a hora “certa”. A hora “errada” também me serve, tal qual o servo a seu senhor. É por isso que o silêncio torrencial dessa tempestade parece música aqui dentro desse apartamento. Eu tenho C O N T E M P L A D O. E isso não tem preço!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Após vinte e quatro horas de sofrimento, com direito a todas as dez letras da palavra, ela esperava minimamente o alívio de ter seu bebê nos braços. Mas eles o levaram depressa. Ela vira apenas o vulto de um ser muito pequenino de tom arroxeado. E ninguém dizia absolutamente nada, apesar de seu desespero.

Perdi as contas de quantas vezes eu ouvi essa estória. Era assim que ela fazia com todos os pequenos grandes momentos de sua vida. Recontava-os indefinidamente, mesmo sabendo que já conhecíamos todos os detalhes. Não seria diferente com o meu nascimento, quase trinta anos atrás.

Estranho é eu me questionar a essas alturas sobre porque essas estórias nunca me despertaram uma curiosidade maior. Eu estava enganada. Não conhecia todos os detalhes. E durante a construção do breve relato, eu vislumbrei alguns daquele dia que podem muito bem ter ficado guardados, como tantos outros. Talvez mesmo que eu tivesse feito o longo interrogatório que agora me ocorre.

Ao contar uma estória, por mais habilidoso que seja o narrador, nunca será possível projetar fielmente coisas como cheiros, ruídos, olhares, pensamentos, sentimentos... e pensando nisso, me tomou uma enorme vontade de saber o que passou na mente e no peito dela durante aquele tempo, que eu sequer sei quanto durou, entre ter visto o médico correr dali comigo em meio a uma equipe alarmada e ter me recebido em seus braços. Viva.

Uma pausa apenas para me perguntar o que estou fazendo. Me açoitando querendo reviver essas lembranças assim, do modo mais visceral que eu sei fazer... escrevendo... ?! Mas há um Q de expulsar monstros nisso... então eu respiro fundo após mais um momento de choro compulsivo e... continuo...

Parecidas como éramos, ou melhor, como somos, eu posso imaginar a histeria que tomou conta dela durante aquele tempo que, certamente, rendeu a eternidade. Trinta e seis anos ainda não completos, separados por apenas um mês e três dias. A primeira filha. Não sei se ali havia a consciência do que a maternidade significaria em sua vida... gostaria de ter perguntado isso também...

Eu sempre digo que não me lembro de muitas coisas da minha infância, quase nada. Novamente, estava equivocada. Se tem uma coisa forte em mim é a certeza de que eu fui a criança mais feliz que alguém poderia ter sido. E sentimentos, ao lado de cheiros, ruídos, olhares, pensamentos... são lembranças ainda mais fortes do que cenas fotográficas. Essas, hoje eu tenho também... deixei essa parte para as estórias todas que ela me contou e que construíram aqui dentro um imenso álbum.

Pouco a pouco eu tenho podido provar de uma sentença que ouvi há cerca de um ano atrás, a qual nunca mais me abandonou. Nos últimos meses tem se tornado mais presente até. Alguém que já chorara este choro me disse: “Espere completar dois anos. Você vai ver o que é dor!” Ela tinha razão. E eu temo por faltarem ainda dez meses pra este dia chegar. Já é por demais dilacerante agora!

Poucas vezes eu consigo trazer à memória a máxima inversa, a de que a dor se transforma em uma saudade boa. Eu nunca gostei de sentir saudade. Nunca entendi o que algumas pessoas viam de bom nisso. E mais uma vez, eu estava enganada. Hoje eu sei. O que tinha de bom nisso é que havia a perspectiva do reencontro.

Me ocorre que se ela pode mesmo me ver onde quer que esteja, talvez não se sinta muito confortável, especialmente em momentos assim, em que eu preciso expurgar essa dor e não posso. E então eu choro. Porque urrar seria de péssimo tom com a caçula. E porque não há nada mais que eu possa fazer. E sempre haverá o que chorar. Pra sempre!

De qualquer maneira, as lembranças têm ficado mais límpidas dia a dia. E, às vezes, tenho até a sensação de que a qualquer momento poderei desfrutar de algo parecido com o resultado de um processo de regressão ao me lembrar de alguma coisa nova da minha tenra idade... o que seria demasiado dolorido e feliz, já que não houve tempo em que estivéssemos mais próximas... nem haverá. O 30º ano de vida é o 2º que eu completo sem ela aqui comigo.



P.S.: Peço perdão a quem eu possa ter ferido por compartilhar isso. Talvez não seja a coisa mais conveniente a dizer em tempos de celebração. Mesmo assim agradeço porque, acreditem, não sei como, mas eu celebro mais um ano de vida... só ainda não sei fazer isso sem me enlutar...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Um homem sem voz se pôs a conversar comigo enquanto esperávamos o elevador. Fim de mais um dia. Ou melhor, início da noite. Porque o fim também pode ser o início, oras! Alguém poderia perguntar: mas você nunca havia pensado nisso antes? É claro que já! Mas não com a singeleza que aquele “não timbre” dava ao meu olhar. Na primeira vez em que nos vimos, ele tinha nas mãos um objeto não identificado que se identificava, ou melhor, que o identificava quando ele o encostava na própria traqueia. O tal objeto transformava as vibrações em som e assim eu podia saber o que ele estava dizendo. Me lembro de ter sentido qualquer coisa semelhante a um “mal estar”, mas que logo se transformou a algo mais parecido com um “mal ser”. Ontem, ao descer do carro e o ver ali no saguão a espera do elevador, talvez, não tenho certeza, meus olhos tenham corrido até as mãos dele pra se certificarem de que o objeto estaria ali. Mas foi quase um lapso de tão veloz. Me lembro apenas de ter baixado a cabeça andando na direção do elevador e antes mesmo que eu tivesse tempo pra dizer em “alto e bom som” o meu “Olá!”, ele me perguntou se eu estava contente com a troca das vagas. É que o carro dele fica estacionado na frente do meu e por uma simples questão de logística considerando que o meu entra e sai da garagem é mais afoito, fizemos o acordo por intermédio de uma representante do condomínio. Eu, rapidamente, sorri com um “Sim!” e acrescentei um dos meus chavões de bolso que servem pra escapulir da minha própria falta de criatividade: “Por que não facilitar?!” Ele me perguntou se eu conhecia certa música do Lenine apenas pra me dizer sobre o seu lema: PACIÊNCIA. E agora, pensando bem, eu no lugar dele talvez não dissesse mais nada. Afinal, o que alguém que não tem voz poderia dizer durante um simples encontro entre vizinhos no hall do elevador? Gentilmente, ele abriu a porta e me cedeu passagem. As palavras trocadas no curto trajeto que fizemos juntos do 3º subsolo ao 3º andar se perderam em algum lugar da superfície do meu encantamento. Àquela altura, minhas pupilas já brilhavam lubrificadas pelas lágrimas que apontavam. Antes de descer, ele fez questão de parar para terminar de contar o que havia feito ao final do dia antes do prazeroso banho que tomaria logo mais: uma parada no posto para um lanche. E eu então notei que ele trajava roupas de ginástica. Já fechando a porta, ele se despediu com um “Fique em paz!” Como não?! É que ele não sabe da eficácia daquele imperativo. Dez minutos depois eu fui despertada dos desvarios que a cena de não mais que um ou dois minutos provocaram. Em algo perto de uma hora de conversa ao telefone com toda a voz que não poderia faltar, mencionei a experiência. E um dia depois me pego fazendo o que me veio tal qual ânsia ao virar a chave na porta depois do encontro. Porque o que impede a comunicação entre dois corações abertos é qualquer outra coisa que não se chama voz, ou não ressoaria assim, com decibéis tamanhos. A propósito, o tal objeto... além de não identificado... também não estava presente ontem à noite... mas quem repararia?!...