segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Após vinte e quatro horas de sofrimento, com direito a todas as dez letras da palavra, ela esperava minimamente o alívio de ter seu bebê nos braços. Mas eles o levaram depressa. Ela vira apenas o vulto de um ser muito pequenino de tom arroxeado. E ninguém dizia absolutamente nada, apesar de seu desespero.

Perdi as contas de quantas vezes eu ouvi essa estória. Era assim que ela fazia com todos os pequenos grandes momentos de sua vida. Recontava-os indefinidamente, mesmo sabendo que já conhecíamos todos os detalhes. Não seria diferente com o meu nascimento, quase trinta anos atrás.

Estranho é eu me questionar a essas alturas sobre porque essas estórias nunca me despertaram uma curiosidade maior. Eu estava enganada. Não conhecia todos os detalhes. E durante a construção do breve relato, eu vislumbrei alguns daquele dia que podem muito bem ter ficado guardados, como tantos outros. Talvez mesmo que eu tivesse feito o longo interrogatório que agora me ocorre.

Ao contar uma estória, por mais habilidoso que seja o narrador, nunca será possível projetar fielmente coisas como cheiros, ruídos, olhares, pensamentos, sentimentos... e pensando nisso, me tomou uma enorme vontade de saber o que passou na mente e no peito dela durante aquele tempo, que eu sequer sei quanto durou, entre ter visto o médico correr dali comigo em meio a uma equipe alarmada e ter me recebido em seus braços. Viva.

Uma pausa apenas para me perguntar o que estou fazendo. Me açoitando querendo reviver essas lembranças assim, do modo mais visceral que eu sei fazer... escrevendo... ?! Mas há um Q de expulsar monstros nisso... então eu respiro fundo após mais um momento de choro compulsivo e... continuo...

Parecidas como éramos, ou melhor, como somos, eu posso imaginar a histeria que tomou conta dela durante aquele tempo que, certamente, rendeu a eternidade. Trinta e seis anos ainda não completos, separados por apenas um mês e três dias. A primeira filha. Não sei se ali havia a consciência do que a maternidade significaria em sua vida... gostaria de ter perguntado isso também...

Eu sempre digo que não me lembro de muitas coisas da minha infância, quase nada. Novamente, estava equivocada. Se tem uma coisa forte em mim é a certeza de que eu fui a criança mais feliz que alguém poderia ter sido. E sentimentos, ao lado de cheiros, ruídos, olhares, pensamentos... são lembranças ainda mais fortes do que cenas fotográficas. Essas, hoje eu tenho também... deixei essa parte para as estórias todas que ela me contou e que construíram aqui dentro um imenso álbum.

Pouco a pouco eu tenho podido provar de uma sentença que ouvi há cerca de um ano atrás, a qual nunca mais me abandonou. Nos últimos meses tem se tornado mais presente até. Alguém que já chorara este choro me disse: “Espere completar dois anos. Você vai ver o que é dor!” Ela tinha razão. E eu temo por faltarem ainda dez meses pra este dia chegar. Já é por demais dilacerante agora!

Poucas vezes eu consigo trazer à memória a máxima inversa, a de que a dor se transforma em uma saudade boa. Eu nunca gostei de sentir saudade. Nunca entendi o que algumas pessoas viam de bom nisso. E mais uma vez, eu estava enganada. Hoje eu sei. O que tinha de bom nisso é que havia a perspectiva do reencontro.

Me ocorre que se ela pode mesmo me ver onde quer que esteja, talvez não se sinta muito confortável, especialmente em momentos assim, em que eu preciso expurgar essa dor e não posso. E então eu choro. Porque urrar seria de péssimo tom com a caçula. E porque não há nada mais que eu possa fazer. E sempre haverá o que chorar. Pra sempre!

De qualquer maneira, as lembranças têm ficado mais límpidas dia a dia. E, às vezes, tenho até a sensação de que a qualquer momento poderei desfrutar de algo parecido com o resultado de um processo de regressão ao me lembrar de alguma coisa nova da minha tenra idade... o que seria demasiado dolorido e feliz, já que não houve tempo em que estivéssemos mais próximas... nem haverá. O 30º ano de vida é o 2º que eu completo sem ela aqui comigo.



P.S.: Peço perdão a quem eu possa ter ferido por compartilhar isso. Talvez não seja a coisa mais conveniente a dizer em tempos de celebração. Mesmo assim agradeço porque, acreditem, não sei como, mas eu celebro mais um ano de vida... só ainda não sei fazer isso sem me enlutar...

2 comentários:

Camila Caringe disse...

Não sei o que dizer...

*Livia* disse...

E as minhas lágrimas correm como as suas. Quem é que não tem a sua pequena-grande tragédia de vida, não é?
Mas não vamos perder a esperança de que o tempo faça, sim, as coisas melhorarem pra nós.
Na confiança de que um dia estaremos todos juntos novamente...
Mil beijos.
Amo vc.