terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Um homem sem voz se pôs a conversar comigo enquanto esperávamos o elevador. Fim de mais um dia. Ou melhor, início da noite. Porque o fim também pode ser o início, oras! Alguém poderia perguntar: mas você nunca havia pensado nisso antes? É claro que já! Mas não com a singeleza que aquele “não timbre” dava ao meu olhar. Na primeira vez em que nos vimos, ele tinha nas mãos um objeto não identificado que se identificava, ou melhor, que o identificava quando ele o encostava na própria traqueia. O tal objeto transformava as vibrações em som e assim eu podia saber o que ele estava dizendo. Me lembro de ter sentido qualquer coisa semelhante a um “mal estar”, mas que logo se transformou a algo mais parecido com um “mal ser”. Ontem, ao descer do carro e o ver ali no saguão a espera do elevador, talvez, não tenho certeza, meus olhos tenham corrido até as mãos dele pra se certificarem de que o objeto estaria ali. Mas foi quase um lapso de tão veloz. Me lembro apenas de ter baixado a cabeça andando na direção do elevador e antes mesmo que eu tivesse tempo pra dizer em “alto e bom som” o meu “Olá!”, ele me perguntou se eu estava contente com a troca das vagas. É que o carro dele fica estacionado na frente do meu e por uma simples questão de logística considerando que o meu entra e sai da garagem é mais afoito, fizemos o acordo por intermédio de uma representante do condomínio. Eu, rapidamente, sorri com um “Sim!” e acrescentei um dos meus chavões de bolso que servem pra escapulir da minha própria falta de criatividade: “Por que não facilitar?!” Ele me perguntou se eu conhecia certa música do Lenine apenas pra me dizer sobre o seu lema: PACIÊNCIA. E agora, pensando bem, eu no lugar dele talvez não dissesse mais nada. Afinal, o que alguém que não tem voz poderia dizer durante um simples encontro entre vizinhos no hall do elevador? Gentilmente, ele abriu a porta e me cedeu passagem. As palavras trocadas no curto trajeto que fizemos juntos do 3º subsolo ao 3º andar se perderam em algum lugar da superfície do meu encantamento. Àquela altura, minhas pupilas já brilhavam lubrificadas pelas lágrimas que apontavam. Antes de descer, ele fez questão de parar para terminar de contar o que havia feito ao final do dia antes do prazeroso banho que tomaria logo mais: uma parada no posto para um lanche. E eu então notei que ele trajava roupas de ginástica. Já fechando a porta, ele se despediu com um “Fique em paz!” Como não?! É que ele não sabe da eficácia daquele imperativo. Dez minutos depois eu fui despertada dos desvarios que a cena de não mais que um ou dois minutos provocaram. Em algo perto de uma hora de conversa ao telefone com toda a voz que não poderia faltar, mencionei a experiência. E um dia depois me pego fazendo o que me veio tal qual ânsia ao virar a chave na porta depois do encontro. Porque o que impede a comunicação entre dois corações abertos é qualquer outra coisa que não se chama voz, ou não ressoaria assim, com decibéis tamanhos. A propósito, o tal objeto... além de não identificado... também não estava presente ontem à noite... mas quem repararia?!...

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